Nikolai Gógol: Taras Bulba

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Taras Bulba, protagonista do romance homônimo de Nikolai Gógol, poderia ser resumido a uma palavra: testosterona. O cossaco idealizado do escritor russo é o ápice conceitual de uma sociedade patriarcal e temente apenas ao seu deus. Machismo é termo leve para descrever o nível de dominância do homem nesta sociedade primitiva encravada na Rússia meridional.

Gógol, um romântico, tece aqui um retrato épico de um mártir da pátria, ainda que, no final das contas, Bulba pareça mais interessado em beber e arranjar briga. A descrição dos cossacos é tão encharcada de tons heróicos que um leitor atual poderia desconfiar que Gógol, na verdade, está sendo sarcástico. Os cossacos são puros, extremamente fortes, desconfiados, estóicos, enfim, o tipo de marido que recebe os filhos de volta da universidade, e decide que eles devem se dirigir a uma guerra estúpida como qualquer outra para ter o único prêmio do guerreiro: a morte.

À mulher, no caso a mãe dos dois filhos de Bulba, fica reservada resignação triste e contida. Carcomida pelos anos, seca pelo estoicismo alheio, ela vê murchar dentro de si a chama esperançosa de ter com ela, por um par de dias que fosse, suas crianças crescidas. Bulba pai é tão cheio de si que deve imaginar que os filhos são apenas seus, e que uma mãe é apenas uma cápsula que encaminha sua louvada testosterona de si para formas autônomas, clones jovens a quem sacrificar por puro orgulho.

Entre as mulheres, Gógol descreve ainda a sedutora do caçula dos Bulba, uma polonesa encantadora e de afetos fáceis, como as outras deste povo leviano. Talvez haja algum polonês que preste, mas a maioria é formada por mariconas pomposas em roupas bordadas a ouro. Os judeus são descritos como astutos e ardilosos, serpentes que roubaram tudo dos pobres cossacos. Muçulmanos, tártaros? Escória, todos.

Mas o que esperar de povos que viviam numa encruzilhada esquecida pelos seus governantes, expostos aos ataques de hordas aleatórias que atravessavam as estepes? O século XV não foi uma época que possa ser lembrada pela sutileza ou pela civilidade, o que faz Taras Bulba um homem de seu tempo.

Neste momento, você pode estar se perguntando “Porque diabos eu leria este livro?”. Ora, porque é uma aventura emocionante, porque é muito bem escrito. As descrições de Gógol são vibrantes, talvez justamente por serem exageradas. Ele se desvela em termos locais, detalha os costumes cotidianos, nos faz entender as crenças que moviam tais bárbaros que, no fim das contas, tinham sua parcela de personalidade, sua cultura.

Termina mal, é claro, todo mundo morre. Bulba mata um de seus filhos, e assiste ao outro ser torturado até a morte diante de si. E não muda. Segue firme, xingando e matando até encontrar seu próprio destino de guerreiro. Nada se fala de sua mulher, como era de se esperar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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