H.G. Wells: Ann Veronica

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Ann Veronica é um título constrangedor, do tipo que se aplicaria aos romances melosos que nossas tias e mães liam, e que hoje substituíram por exemplares de Nicholas Sparks. Entretanto, trata-se de um romance de H.G. Wells, conhecido por A Máquina do Tempo e outros romances que encantaram muitas gerações com vislumbres, nem sempre certeiros, do que viria a ser o futuro do ponto de vista da virada do século XIX para o XX.

Há claramente duas fases no livro. Na primeira, é descrita a vida da protagonista, uma moçoila de 22 anos que se descobre prisioneira em uma gaiola de ouro do tamanho da sociedade inglesa, cerceada por homens diversos. Wells é didático ao extremo, chegando a irritar em alguns momentos, e consegue desenhar alguns tipos extremamente familiares. O pai zeloso é o primeiro homem, conhecedor do mundo que ronda sua caçula inocente, viúvo, sofre por uma das filhas, que deserdou por haver casado com um ator pobretão. Há o galanteador rico e cavalheiresco que tenciona adquirir Veronica como se fosse uma peça de porcelana, o aproveitador dissimulado que se aproxima como amigo e suporte à emancipação da menina apenas para logo deixar de lado sua pele de cordeiro, e os abutres que circulam em torno de toda carne nova em que possam botar os olhos.

Wells é feliz quando imbui Veronica de um desejo simples de emancipação que não carrega consigo outras causas, como socialismo fabiano e vegetarianismo, que se avizinham deste feminismo embrionário. Prefiro enxergar estas frentes de luta, que hoje se juntam a ciclo-ativismo, proteção dos animais, ambientalismo em uma massa consistente de reivindicações por maior justiça social e uma vida mais plena para todos, mas Veronica é mais verossímil sendo apenas uma mulher buscando igualdade num mundo de homens. “Apenas” é uma força de expressão: este mínimo de liberdade, naquele tempo, precisava ser batalhado palmo a palmo.

Na segunda fase a cartilha desanda em nuances polianescas que quase colocam a perder os esforços da primeira. Wells deixa a narrativa se inflamar com o combustível de suas próprias experiências. Ann Veronica é uma mistura de duas mulheres com quem se relacionou intensamente, tendo fugido com uma delas de seu primeiro casamento, e tencionado fazer o mesmo com a outra depois de dez anos e dois filhos do segundo casamento.

É sintomático que Ann Veronica se envolva com este fac-símile de Wells, deixando suas ambições de liberdade de lado. Ela parece, em mais de um momento, ter inventado a balela toda da emancipação apenas para encontrar um marido melhor do que as opções disponíveis em Morningside Park. O que se descreve até o final do livro, então, é um romance cor-de-rosa recheado de edulcorantes. Há algumas reflexões interessantes, mas o contexto geral é de um idealismo delirante.

Ann Veronica é, todavia, uma excelente leitura para meninos e meninas que desejam entender melhor os mecanismos da dominação machista no mundo. Os arquétipos estão todos lá, claros e consistentes, tão cheios de substância que eu não me surpreenderia de encontrar um Ramage amanhã em algum ponto de ônibus. Na época, causou furor entre os conservadores, e hoje ainda mantém o poder de inspirar mulheres e homens a mudarem seu mundo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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