Christopher Nolan: Interestelar

interstellar

Esta resenha está repleta de spoilers. Como eu não quero ser a razão para o mimimi de nenhum chorão, peço que voltes aqui depois de ver o filme. Sério, ele é lindo e intrigante, e minha resenha vai ser bem mais legal de ler depois de vê-lo.

Christopher Nolan conseguiu de novo. Interestelar é provavelmente o filme que mais me marcará durante este 2014 de tantas ocorrências marcantes, não necessariamente no cinema, claro. O conceito de fuga de uma Terra exaurida para colonização já havia sido usado antes em filmes tão distintos quanto Pandorum ou Wall-E, mas Nolan soube mesclar aventura e física moderna com drama para contar uma história sobre paternidade.

Cooper é um pai extremamente dedicado a seus filhos muito distintos, um dos quais ele deixa para o outro pai marcante da trama, o professor Brand. Quando Cooper parte, assume a paternidade da filha do professor Brand. Ainda que o retorno de Cooper para a senhorita Brand, no final do filme, possa assumir, para os criacionistas de plantão, ares de romance ou mesmo de uma reencenação do mito de Adão e Eva, eu não penso assim. Cooper corre para Brand porque ela é o único ser humano reminiscente de sua era. O restante do mundo, devido ao descompasso do tempo decorrente da proximidade do buraco negro, vê Cooper como uma personalidade famosa, uma antiguidade a qual se deve devoção, uma peça de museu enfim. Cooper percebe isso claramente quando descobre sua casa transformada em museu. A relação de Cooper com Brand não se encaixa na noção de par romântico. Nolan não se entrega a simplificações que não estejam a serviço da fluidez da trama.

O personagem de Jessica Chastain é pesado, e eu não consigo apreciar. Nem vou falar do que fizeram com Topher Grace, ator menor agraciado com algumas cenas patéticas; ele podia ter dormido sem esta. A trilha sonora não acerta sempre, embora não chegue a prejudicar. Por outro lado, Matthew McConaughey, quem diria, mostrou que sua excelente fase atual é consistente. Espero que Bradley Cooper, outro egresso do universo das comédias românticas, possa dizer o mesmo em breve.

O mundo retratado por Nolan é antropocêntrico ao extremo. Não há animais, silvestres ou domésticos, a menos que eu estivesse, durante a projeção, sofrendo de cegueira seletiva. O avô Donald reclama, em certo momento, de não haverem mais cachorros-quentes, mas “apenas pipoca”. Teria o ser humano, naquele ponto da história, destruído todos os outros animais? A inexistência destes poderia explicar, em parte, a predominância da “praga” que destroi implacavelmente as safras ano após ano.

De qualquer modo, a Arca de Nolan se diferencia radicalmente da Arca do Noé de Darren Aronofsky. Em Interestelar, apenas a população humana é que será transportada, e um dos grandes dilemas é se (a) ela será transportada como população atual ou (b) como um tanque congelado de óvulos fertilizados para a criação de uma nova colônia em outra galáxia. Nolan não deixa claro se a nuvem de poeira que assola a Terra é culpa do ser humano, mas um bom entendedor entenderá que nossa raça pode estar saindo da Terra para exaurir outro planeta em outra galáxia. Coitado do planeta. Uma versão alternativa do filme poderia lidar com os dilemas éticos de evitar que, por exemplo, republicanos adoradores de petróleo fossem gerados nesta nova colônia.

Ainda que haja críticas pertinentes ao feito de Nolan, eu o agradeço por renovar, com este magnífico filme, minha capacidade de sonhar com o cosmos. Fico angustiado, entretanto, com suas perspectivas futuras. O que alguém cria depois de ter feito um filme como Interestelar? Nolan já havia me encantado com O Grande Truque e A Origem, e fico imaginando de que cartola sairá o próximo triunfo.

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Sobre gilvas

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2 respostas para Christopher Nolan: Interestelar

  1. gilvas disse:

    no começo esta proposta do amor como motor de alguns saltos me soou um pouco goiaba, mas o nolan teve as manhas de amarrar este conceito e torná-lo consistente e necessário, como várias outras pontas que ele foi plantando durante o filme.

  2. Roberta disse:

    O filme me lembrou um conto (não lembro nem o nome nem quem escreveu) sobre uma conversa entre um cara que diz ser Deus e um ateu. No conto, “Deus” diz que as espécies que sobrevivem precisam dar saltos evolutivos sem se alto destruírem. Embora o filme realmente seja antropocêntrico, o que me maravilhou foi a mensagem (talvez romântica de mais) de que esses saltos evolutivos só acontecem se houver amor.

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