William Gibson: Neuromancer

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Sabe quando a expectativa é alta? Mas muito alta mesmo. Neuromancer, romance que William Gibson finalizou em 1983, se encaixa nesta classificação. Ganhador de todos os prêmios possíveis em ficção científica, eleito um dos cem melhores romances de língua inglesa do século XX, carro-chefe do movimento cyberpunk, precursor de ideias como a internet, Neuromancer contém uma mistura altamente inflamável de todas as correntes do futuro que passavam por aquele fatídico ano da década de oitenta.

Matrix, lançado em 1999, ou seja, dezesseis anos depois, deve a Gibson, e seus comparsas, seus conceitos principais, como a própria matriz, onde seres vivos se conectam através de anacrônicos telefones fixos em espaços estilosos onde convivem todas as eras, seres humanos e inteligências artificiais. O filme dos irmãos Wachovski, e não estou falando das bobas continuações, incluiu chamarizes de bilheteria como messianismo e bela adormecida, mas terá uma dívida eterna para com Molly, que se decalcou em Trinity.

Mas Neuromancer vai longe, bem mais longe, a ponto de seus ecos chegarem a Inception, por exemplo, cujas praias a beira de prédios em ruínas, descobri, não são lá tão originais. Gibson teve as manhas de mesclar o dub jamaicano, o que traz de arrasto os rastafaris, com estações orbitais, corporações gerenciadas por clones loucos que se aproximam da eternidade pela criogenia, implantes sintéticos em pessoas movidas a drogas também sintéticas, ninjas sobre-humanos que servem a semi-deuses autistas.

As primeiras cinquenta páginas, confesso, me deixaram um tanto decepcionado. Gibson leva um tempo até conseguir inserir o leitor em seu universo de absurdamente fértil imaginação, o que pode ser frustrante, e o que quase me convencer de que eu estava lendo um fiapo de trama noir soterrados por miríades de citações pseudo-tecnológicas e palavras de efeito.

Até que engrena.

Eu não lembro exatamente em que ponto aconteceu, mas eu me viciei de forma aterradora. Gibson tira cartas de uma cartola que não encaixaria em nenhuma cabeça, uma imaginação doentia que se materializa em uma escrita de bons achados poéticos. Sua narrativa evoca imagens consistentes, sem as quais mesmo seu impressionante arcabouço de ideias não se tornaria um romance. Na penúltima década do século XX, é como se o romantismo, ressaca do iluminismo, renascesse de uma carcaça inerte, reinventada, e corresse em suas veias monstruosas uma saraivada de bits eletrificados e projeções virtuais.

Com Neuromancer, Gibson inventa um inquietante universo, uma mitologia para uma nova era. Seu futurismo falha, fato bem-vindo, dado que seu romance inaugura a fantasia equivalente à nossa realidade atual, de internet, interconexão, perda de identidade, corporações sem rosto. Neuromancer é bibliografia básica para quem deseja sonhar os tempos que virão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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