Vitor Ramil: Satolep

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Minha companheira de anos, ao ver a primorosa edição que a Cosac Naify dedicou ao último romance de Vitor Ramil, e baseada no testemunho de pessoas próximas que conhecem Pelotas, confessou estar imaginando o que poderia se escrever de atraente sobre a cidade gaúcha. Pelotas, como o livro deixa entrever, já teve sua era de ouro, da qual restam ruínas de arquitetura e um amor inflado no peito de alguns de seus nativos. O passado grandioso da cidade, a meu, não é nada glorioso: escravidão de seres humanos e assassinato de animais pavimentaram suas ruas e ergueram seus edifícios.

Vitor Ramil deve ser o cidadão mais apaixonado de Pelotas, a ponto de criar uma cidade-personagem para permear muitas de suas criações. Satolep surge em suas canções, em seus textos publicados, e mesmo em um personagem burlesco que Ramil encarnou por algum tempo. A minha curiosidade sobre este livro se baseia menos na Pelotas real do que na personagem que Ramil criou. Tamanho amor do artista costuma engendrar obras mais do que interessantes.

Satolep, o romance, é o caso em que o amor não é o suficiente. Ramil injeta este amor em doses massivas no corpo de uma cidade moribunda, um testemunho de eras passadas, que é descrito pelos olhos de seus cidadãos mais ilustres, ou mesmo de forasteiros relevantes. O resultado corresponde à costumeira elegância dos textos de Ramil, mas não empolga. Falta aquela fagulha que faz a obra ascender aos céus e existir por si própria. A divagação de Ramil elenca passagens e momentos, mas não chega a um ponto de massa crítica como o de seu repertório musical; Satolep parece uma compilação carente do processamento sofisticado que a tornaria, talvez, um novo álbum. Sim, seria uma beleza de álbum conceitual.

Como livro, falta-lhe a profundidade aos personagens. Ramil demonstra um carinho imenso ao manter seus personagens em um plano elevado, quase diáfano, mas isto lhes custa a verossimilhança, a humanidade. Um pouco mais de esforço resolveria este dilema? Talvez. Faulkner criou uma localidade fantasiosa a partir de suas visões do sul que habitava, e a batizou com o impronunciável nome “Yoknapatawpha”. Ramil, por seu turno, se limitou a inverter a ordem das letras de Pelotas. Este expediente, algo raso, não está no nível elevadíssimo que se aplica a quase toda a sua obra.

“A lição, amiguinhos”, como diria o He-Man em um de seus epílogos moralistas, “é que apenas amor sozinho não faz um romance.” Mesmo que seja o amor a uma cidade inteira.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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