Neil Gaiman: O Oceano no Fim do Caminho

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Acordo cedo, tendo acabado Satolep na noite anterior. Olho para O Oceano no Fim do Caminho, e penso que eu mereço muito ler um Gaiman neste final de período, logo antes das férias, quando todas as picuinhas parecem se enfileirar para desafiar minha frágil paciência. Sei de antecedência que gostarei de um Gaiman. Pode ser um Gaiman mais ou menos, como Coraline, pode ser um magnífico, como Lugar Nenhum. O fato é que terminei de ler Oceano em escalas que incluíram meu sofá velho, pontos de ônibus esturricados, coletivos lotados de praieiros suburbanos, entre outras, até o final do dia.

Um dos personagens mais famosos de Gaiman se parece com Bob Smith, e lembro de uma resenha que saiu na época do lançamento de Wish. O resenhista elogiava Doing The Unstuck, que destoava do registro prévio da banda inglesa por não possuir uma quilométrica introdução, e sim o vocal, direto, entrando antes da famosa massa sonora do Cure. Oceano é como Doing The Unstuck: Gaiman poupa-nos de qualquer firula do mundo real, nos arremessando logo nos desvarios fantasiosos que são a marca registrada do desenvolvimento de seus romances e contos.

Ainda que o mote central de Oceano seja um eco daquele de Coraline, no mais recente romance Gaiman está tratando de algo muito especial: suas lembranças, que ele empresta a seu protagonista. Mais uma vez temos um típico romance de formação do herói, mas que soa especial para os pais que podem, ao lidar com seus próprios filhos, ter esquecido de suas versões infantis. Oceano resgata esta fase difícil, ainda mais quando se é introspectivo e afeito mais a livros do que a outras crianças.

O autor nos lembra de que os grandes feitos não raro residem em recantos esquecidos, e que a magia é apenas uma faceta das coisas que não vemos. As teorias atuais sobre a formação do cosmo entram, com antigas lendas quase esquecidas, na mistura que Gaiman cozinha ao fogo de sua escrita precisa e empolgante. Oceano se desenvolve como um filme que, criminosamente, não está em produção. E que talvez não seja necessária, tão rica em descrições a sua imagética. Um livro para quem aprecia sonhos, sustos e gatos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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