Muito além do pau de selfie

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2015 mal começa, e já temos um hit de verão. Diferentemente de outros anos, não se trata de uma canção pegajosa de sertanejo universitário ou algum axé de dançarinas popozudas com letras de duplo sentido. A mania do verão está sendo a auto-fotografia, batizada em nossa colônia, que devora Apple, McDonald’s e Starbucks como se fossem iguarias, de “selfie“.

A moda ganhou alta rotação quando foi aplicada na cerimônia do Oscar de 2014. Na ocasião ocorreu a chancela de um punhado dos maiores astros do momento; o selfie estava firmado como uma linguagem cool, bem aceita em todas as camadas sociais. Deste marco zero, foram alguns meses até inventarem a coisa mais medonha desde a bizarrice conhecida como “mola maluca”, brinquedo que empalidece, em tosquice, até os penteados da contemporânea ópera saponácea Rainha da Sucata. Falo do “pau de selfie“, que alcançou elevada penetração mesmo nas festas das famílias mais tradicionais.

Antes que ânimos se exacerbem, devo alertar que não estou aqui para resmungar sobre uma pretensa pobreza de espírito de que quem se acotovela em fotos cafonas com fogos ao fundo e uma frase vazia qualquer como legenda dos bons ensejos para 2015. Não é de hoje que (a) a experiência genuína é cooptada por mecanismos corporativos para obtenção de lucro e (b) a tal experiência genuína é esquecida para dar lugar à ânsia de auto-promoção e projeção em determinados grupos sociais.

O caso (a) é devidamente descrito por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, bibliografia básica para entender nossa sociedade de hedonismo embalado em plástico e pílulas para dormir. O caso (b), por sua vez, encaixa-se nas palavras mais recentes de Michel Pochet sobre o papel da fotografia num universo anterior a celulares multipixelados, então não estou implicando com paus de selfie. Não neste texto, pelo menos.

Prosseguindo em (b), reparo que a conexão do ser humano com seu âmago de sensações e sentimentos está obliterada. Pessoas vão a apresentações de suas bandas pretensamente prediletas, e não lhes ocorre que, ao filmarem o show em seus celulares, estejam perdendo a chance de ter uma experiência magnífica. Da mesma forma, outras ocasiões se perdem: trilhas na natureza, peças de teatro, espetáculos de comédia, festas de virada do ano.

Seria um fascinante exercício sociológico buscar a compreensão profunda deste movimento, mas apenas se ele fosse genuíno. E não é. A tendência de afastamento do ser humano de seu momento presente, conforme (a), é uma manobra muito bem desenhada por publicitários e antropólogos pagos por grandes corporações. Seu objetivo é colocar etiquetas com preços em tudo o que uma pessoa aprecia ou possa vir a apreciar. Hábitos são informação a ser compilada, e todo possível evento que envolva alegria ou prazer deve ser associada a cifras. Toda experiência deve ser monetizada, conforme corretamente radiografa a revista Página 22 em uma edição dos últimos meses de 2014.

Neste contexto, o pau de selfie é apenas uma bobagem passageira. Usando a banalizada, porém certeira, analogia do iceberg, esta varinha de metal com conexão Bluetooth não passa da ponta mínima de uma massa monstruosa de engodos que nos são alimentados via diversos canais de mídia. Daqui a dez anos, as pessoas provavelmente terão vergonha destas fotografias datadas e cafonas, e as corporações terão avançado ainda mais na criação de formas de extrair nosso dinheiro e nossa dignidade. No mais das vezes, cito desconhecendo a fonte, piora.

O que não impede este articulista amador de desejar a todos os leitores um feliz 2015, claro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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