Enrique Vila-Matas: O Mal de Montano

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Vila-Matas, previamente resenhado por aqui com seu Suicídios Exemplares, não me convenceu neste O Mal de Montano. Dividido em quatro partes, o livro começa com a parte homônima, onde se descreve o périplo de um crítico de arte que passa por uma crise fortíssima de obsessão pela literatura. Esta primeira parte funciona de forma similar a outros textos de Vila-Matas, uma mistura de criação ficcional com citações de autores, alguns vivos, alguns mortos, alguns inventados, turbinando a narrativa com marcadores do mundo real ou quase.

A porca espana quando Vila-Matas embrenha pela releitura desconstrutiva da primeira parte nas partes subsequentes. Esta abordagem deixa virem à tona alguns problemas, como a auto-comiseração do literato, algo que pode ter feito urrarem outros escritores que se consideram injustiçados por uma suposta conspiração mundial pela mediocrização da literatura. Surge deste e de outros pequenos vícios uma preguiça deste leitor para com esta segunda parte. Nas duas partes restantes, o impacto é menor, e a leitura segue prazerosa.

A intenção do discurso de Vila-Matas aqui é perturbar, tomando como uma referência Kafka, que se carimba em muitas páginas como citação ou como linha de narrativa. E funciona. Ao brincar com a realidade percebida do ponto de vista do narrador, o autor nos deixa inseguros, sempre buscando uma reinterpretação em cada camada proposta. No cômputo geral, não é possível se agarrar a apenas uma das versões como a verdadeira, e o desconforto se instaura, seja na esquizofrenia, seja na mitomania compulsiva.

O escritor autêntico, o verdadeiro cultor da literatura, ele é louvado, pertence a um clube, a uma conspiração consistente ainda que alucinada, que mistura Kafka, narradores vampirescos, a Muralha da China e toupeiras escondidas em cones de vulcões. Trata-se de um clube seleto mas algo doentio, como se poderia esperar de uma arte que se percebe moribunda. A autofagia da narrativa, de um escrito que devora escritores que devoram escritos que desaguam em diários que são lidos, arrisca tornar-se monótona mas desconfio que sofro de uma versão atenuada do mal de Montano, e é melhor não entrar em detalhes.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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