Eu faço listas.

thyself

Eu faço listas. De compras. De pendências. Escrevo lembretes. De coisas que eu pensei em escrever sobre. De hábitos que eu não consigo ter. Também projeto e preencho planilhas. De contas compridas. De contas divididas. De hábitos que estou tentando adquirir.

Antes de pensarem que registro, como o protagonista de Memento, pistas para um mundo real me escapa, antes de me acusarem de patologias mais rés do chão, esquivo-me. A memória pode ser treinada, deve ser treinada. Por outro lado, as nossas extensões tecnológicas, como o papel, o Post-it, o Evernote, a agenda do Google, elas nos acrescentam camadas, e não as retiram. Porque eu deveria gastar minhas reservas limitadas de espaço intra-cachola para lembrar de trivialidades técnicas e burocráticas se há, dia a dia, a luta para lembrar quem eu sou, como eu ajo, como eu acho que devo entender cada um dos atalhos que me seduzem e a quais devo, ou não, me furtar?

Há aplicativos para lembrar de respirar. Há apitos que te chamam a mastigar dos dois lados da boca. Ouvi falar de um relógio que contam os doze mil passos diários que seriam o mínimo do mínimo para um ser humano retirar-se com alguma honra da galeria dos sedentários. O que mais inventarão para nos lembrar de fazermos o básico em meio ao turbilhão diário que só nos faz esquecermos de nós mesmos, de quem somos, de porque estamos indo por esta rua e não pela outra mesmo que não saibamos a razão. Porque é importante chamar as mesmas coisas por nomes diferentes, porque as coisas podem ser ligeiramente diferentes de um dia para o outro. Ou somos apenas nós que ficamos um pouco diferentes a cada dia?

Sempre gostei das paredes repletas de garatujas às costas do presidiário que deixa epicamente sua cela após tantos anos. Se fosse juntar todos os lembretes, que deixei para outros, menos numerosos do que os que deixei para mim mesmo, quantas paredes tornariam-se plenas de picotes instantâneos e distraídos de dias que eu fui deixando para trás? Que seja a banalidade dos rituais burocráticos a preencher os papéis, os papeizinhos, os cantos rasgados de folhas, que a atenção à existência, quiçá à vida, se imprima apenas em meu corpo, em minhas sinapses, em minha pele que jaz esquecida sobre mim.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s