Umberto Eco: A Ilha do Dia Anterior

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Fui enganado, percebi lá pela esquina entre a segunda e a terceira centena página do romance A Ilha do Dia Anterior. À guisa de hipóteses ocorre-me inicialmente o sangue doce que em mim instaurou Baudolino, divertida elucubração do autor italiano, que li há algum tempo, ou o genial título, prometedor de delícias surrealmente paradoxais embebidas em uma forma bem própria de sinestesia. Me debruço sobre estas e outras sugestões que meu espírito traído excreta para evitar a realidade de que fui iludido por uma re-embalagem, pelo menos estruturalmente falando, de O Pêndulo de Foucault.

Por algum tempo, tudo está bem em A Ilha do Dia Anterior. Eco despeja seu conhecimento histórico em piruetas estéticas que encantam. A trama passada em dois tempos, plena de mistério, nos faz perguntar como diabos Roberto foi parar naquele barco. O caminho tortuoso é sedutor, mas não nos dá pista sobre seu traçado até o momento em que ele surge, como uma paisagem após um morro, de supetão em toda a sua glória. Há elementos que remetem a Clube da Luta, como o irmão maléfico e libertino Ferrante, entregando uma contemporaneidade que, embora presa aos anos noventa, move as engrenagens de um espírito curioso.

A trama central, da busca de uma forma de descobrir longitudes e de um ponto fixo a partir do qual medi-las se espirala para um alto vertiginoso quando se envolve um religioso mais do que inteligente, do qual emerge uma pergunta poderosa: De onde deus teria tirado a água para inundar o planeta inteiro durante quarenta dias? E este tipo de pergunta segue saindo das bocas incrédulas de personagens de uma idade média que, enfim, adquire, pelas palavras habilidosas de Eco, uma forma muito própria de ficção científica, atraente o suficiente para prender usuários de smartphone a estas páginas de papel. Toda a sensação temporal do romance é baseada em inserções hábeis de latim e outras línguas arcaicas, que devem ter causado pânicos localizados no tradutor da versão brasileira. A editora teve o capricho imenso de usar tipos medievais como fonte da impressão, ampliando esta percepção de tempo projetado de um passado distante e misterioso. Sim, Eco é genial, e um leitor poderia se perguntar onde estaria a falha de tão grandioso escritor. Pois então.

Eco tropeça em sua própria genialidade, aparentemente. O homem é um baita historiador, um conhecedor de dezenas de vieses de eventos passados, conjuga personagens reais e fictícios em cenários de uma consistência arrebatadora, tem ideias mirabolantes, mas sofre de deficiências na hora de resolver certas demandas narrativas. Parece-me que Eco não se sente à vontade com a mentira da ficção, que Wilde tão bem esquadrinha em seu manifesto A Decadência da Mentira. Tamanho conhecimento dos fatos históricos, ou seja, da realidade do passado como o registramos em nossos livros e manuscritos, parece intimidar Eco, que resolve, diante de alguma dificuldade narrativa, se enfiar por atalhos vergonhosos como a metalinguagem.

O resultado é que várias passagens do livro são deixadas por terminar, tornando-se fontes de frustração enquanto o leitor é obrigado a atravessar desertos áridos plenos de exibicionismo de Eco que, por alguma razão que me escapa, enche de pretensiosos ensaios filosóficos que não se integram bem à estrutura do livro. Que haja passeios pela metafísica, que o protagonista enverede por questionamentos existenciais, que se projete o conhecimento atual da física nas divagações de um bêbado enfurecido num barco à deriva, tudo isto se aceita, desde que se entregue ao leitor os devidos nós nas pontas soltas que o escritor astuciosamente deixa pelo caminho.

Eu tinha, em tempos passados, o costume de antecipar a leitura, em algum momento, a última página do romance da vez. Era um cacoete de leitor, de orelhas, que se estende audaciosamente onde não deveria ir. Um bom romance, enfim, não deve depender do impacto bombástico de sua última página, de certa forma. Se eu tivesse mantido meu expediente neste caso, encontraria um parágrafo, o último, muito revelador:

(…)
“O autor é desconhecido”; gostaria, porém, que ele tivesse dito que “a escritura é graciosa, mas como vês, está desbotada, e os papéis são agora uma só mancha. Quanto ao conteúdo, pelo pouco que descobri, são exercícios de estilo. Sabes como se escrevia naquele Século… era gente sem alma”.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Umberto Eco: A Ilha do Dia Anterior

  1. Van Dixi disse:

    Olá!
    Estou exatamente no meio do livro, desorientada, buscando ansiosamente pela longitude. Assim, fiz alguma buscas, tentando encontrar padrões, descobertas semelhantes e cai no seu site, puro acaso?
    Algo me ocorreu agora, talvez a intenção de Eco seja essa, deixar o leitor
    com a mesma sensação de desorientação experimentada pelas personagens, afinal esse é o nosso destino, ainda que o conhecimento avance e com ele a tecnologia, a sensação de desorientação é permanente!

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