Arthur C. Clarke: 2001

aleph2001

A versão cinematográfica de 2001 continua me encantando, mesmo depois de tantos anos e de tantas novas percepções sobre a obra de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. Eu ainda não descobri, e penso que seja um mistério charmoso, o que significa o “C” no nome de Clarke, mas agora sei muito mais sobre a odisseia do subtítulo, que se expande muito mais do que se vê no filme.

Este romance foi escrito junto com o roteiro do livro, o que torna ainda mais curiosa a série de divergências entre os dois produtos culturais. Pesa sobre a versão cinematográfica o fato da indústria de efeitos especiais ainda engatinhar na década de 60, e a visão perfeccionista de Kubrick. As cenas dos últimos capítulos, quando Bowman encontra um espaçoporto abandonado, são grandiosas, e demandariam renderização digital de última geração, além de artistas muito criativos. Por outro lado, há as escolhas estéticas de Kubrick, que tornam o final, assim como boa parte do filme, um exercício de cinema, com nada desprezível perda da compreensão das ideias arrojadas que a imaginação de Clarke despeja sobre as páginas do romance.

Nos textos complementares ao texto do romance, disponíveis nesta bela edição da Aleph, Clarke comenta que Kubrick escolheu mudar o planeta central da trama de Júpiter para Saturno por conta da dificuldade técnica de prover bons anéis na tela grande do cinema. Agora faz sentido para mim que o buraco de minhoca de 2001 fique em lugar próximo àquele em que Christopher Nolan o coloca. O livro, inclusive, demonstra, em certas passagens, mais semelhanças com Interestelar do que sua versão filmada.

Clarke narra de forma genial a epopeia cósmica. Seu conhecimento profundo de cosmologia combina-se com suas limitadas, porém efetivas, capacidades narrativas, parindo um romance muito excitante. Tenho minha restrições a Kubrick, diretor que sacrifica, em nome de uma estética que beira a perfeição, qualidades fantásticas dos romances que verte para o cinema. Persegue-me uma dúvida, desde muito: porque diabos Kubrick quase não filmava roteiros originais? Este 2001 seria o caso de um roteiro original se o filme de Kubrick não fosse tão hermético.

Das limitações de Clarke eu já tinha conhecimento. Percebi, nelas, uma certa similaridade com outro luminar, mais antigo, da ficção científica, H.G. Wells. Clarke descreve seus personagens de forma reta, sem os desvios de percepção que a vida real nos serve cotidianamente, o que os torna, ainda que verossímeis, o tipo de pessoa com quem você não curtiria tomar uma cerveja. Felizmente, sua percepção da matéria cosmológica é sublime, de modo que consigo esquecer rapidamente seu futurismo pífio quando se trata da vida no dia a dia. No futuro de Clarke são apenas os homens que ocupam cargos técnicos, cabendo às mulheres chorar pelos seus maridos astronautas, e serem bibelôs em formato de secretárias curiosinhas e bonitinhas. Bem no diminutivo. Clarke foi prejudicado por inovações disruptivas da década de noventa em diante, como os celulares, a internet e as formas diversas de comunicação sem fio, sem falar no armazenamento em quantidades nababescas que hoje é banal. Em outros casos, faltou imaginação: o ser humano, em 2001, está a caminho das estrelas, mas sua ideia de dieta saudável e saborosa ainda envolve maciças doses de “costeletas e bacon”.

Por outro lado, seu HAL é simplesmente um dos vilões mais bem desenhados da literatura. Suas motivações são distorcidas camada a camada de modo a desembocar de forma consistente em suas ações tresloucadas. David Bowman é um personagem muito bom, talvez por não passar de um ser humano de disciplina acima da média; Clarke não funciona bem quando se arrisca a maiores amplitudes emocionais. Seu gênio consiste em nos fazer sonhar com uma imensidão cósmica viável, com criaturas estelares de uma imaginação deslumbrante, à beira do apavoro. A imensidão do Universo nos faz, pelas narrativas de Clarke, viver mesclas intensas de espanto e encanto.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s