Ficção No. 57

nigredoOs primeiros degraus são simples. Os olhos estão fechados, mas este caminho já foi percorrido inúmeras vezes. Descalço, consegue reconhecer até mesmo as texturas de cada piso frouxamente personalizado por um expediente pseudo-aleatório em uma fábrica anônima. Conhece o número de degraus e cada quina, cada combinação que se encaixa na sequência seguinte, desce-as correndo com a certeza de ser como o vento a moldar pelo caminho quebrado em ângulos retos. Já andou lentamente, pé ante pé, testando o momento exato em que os sensores de movimento acionam o clique eletrônico que, um átimo de segundo depois, fazem a energia elétrica percorrer os circuitos da lâmpadas, inundando o espaço claustrofóbico destas escadarias sem graça.

Assim que as pálpebras se encontram sobre o cristalino, tapando a iluminação, preenchendo os sólidos irregulares que compõem o ar inerte destas escadarias, o medo surge. A escuridão desce como um óleo sórdido, abraçando o corpo, percorrendo a pele em ondas frias de um fluido que sabe mais do que transmite ao tato. Que esconde esta escuridão forjada, forçada pela exclusão do sentido da visão? O corpo cego passa cortar seu caminho numa matéria mais densa do que o simples ar que uns segundos antes ali estava; que transmutação feiticeira proporciona esta terrificante sensação de preenchimento súbito? Qualquer ar que se movimento, por capricho de uma fresta sob uma das portas corta-fogo, por resposta pouco óbvio ao movimento do corpo, qualquer suspeita de brisa se transmuta em um braço monstruoso e deformado, ainda que poderoso em sua capacidade de causar danos, arauto de uma criatura que a imaginação não perde tempo a dar detalhes, tão lúgubre é a realidade do que já pressente.

os olhos abertos, num supetão, numa expiração estéril de alívio, são o retrato de uma decepção continuada. Dia após dia, as janelas de abrem para mostrar à alma que nada existe ali naquele espaço inalcançável. o medo, curiosamente, pode oscilar desde a presença do outro, desconhecido, à ausência do outro, querido. O medo corrói nossas tentativas de razão, retira qualquer fiapo de confiança que nos possamos arrogar. Esta certeza percorre os nossos dias, uma ave negra, ainda que pequena, que faz questão de encontrar pouso sempre à nossa vista, nos faz ter certeza de que nos vê, ungida em um silêncio próprio deste mistério que é a escuridão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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