John Updike: O Sabá das Feiticeiras

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Ainda que Updike não seja um nome tão popular no imaginário literário tupiniquim, é difícil quem não tenha assistido à versão cinematográfica de seu Bruxas de Eastwick, estrelado por elenco de peso. A editora Círculo do Livro adaptou o título para um curioso O Sabá das Feiticeiras, por razões que desconheço e tampouco desconfio, mistérios do universo editorial receoso de que algum detalhe de capa destrua as chances de um romance tornar-se lucrativo.

Updike está em sua plena forma. A narrativa flui com sobressaltos suficientes para manter o interesse, mas sem se render aos cortes rápidos que outras novelas usam como um reforço do suspense. Há ocorrências súbitas, claro, e mais de uma vez o leitor se encontra em maus lençóis ao ver naufragar um vaso aparentemente em velocidade de cruzeiro. As descrições, ferramenta que Updike domina ao ponto de ser citado como referência didática, são riquíssimas, intrometem-se na narração sem criar reclamações; em alguns pontos, chegam a aliviar algum crescendo tensão que ia tornando-se anestésico, para retornar ao fluxo da história com fôlego renovado.

A ambientação é a mesma de sempre, pequenas cidades onde as famílias sustentam a aparência de estável felicidade pela aplicação constante de cornos ao cônjuge, técnica que pode ser recíproca ou mesmo competitiva. Todos os moradores sabem quem trai com quem e quando e como, e talvez até mesmo porque, se é que seja necessário ter uma razão para pular a cerca de uma instituição que já era retrógrada nos anos 80.

O mote das três feiticeiras é recorrente de antigas lendas e histórias, e já era utilizado na Grécia antiga. Neil Gaiman usa este arquétipo de formas claras ou disfarçadas em diversos romances e histórias curtas. Aqui o tema é retomada pelo viés dos subúrbios tediosos norte-americanos que tanto apetecem a Updike. A feitiçaria é um fato, e sua representação não deve ser confundida com o veio de realismo fantástico que surgiu na América Latina um pouco antes; as feiticeiras de Updike são seres que evocam uma magia real e cotidiana, de receitas como as de comidas caseiras de avó.

As personagens são poderosas mas, curiosamente e de forma similar ao que se vê na realidade, as mulheres são manipuladas pelos homens, criaturas patéticas, fragilizadas, que só alcançam seus intentos pelas forças femininas. Segundo Updike, o poder verdadeiro, enfim, emana das mulheres, mas elas se confundem neste mundo dos homens, lhes prestam serviços pelos quais são pagas com migalhas de consideração, recompensas que apenas afastam o tédio um pouco. É como se elas não acreditassem que seja possível o sucesso, que ele se canaliza necessariamente por um homem.

De certa forma, este sucesso é o que elas alcançam ao final do romance. Updike parece ter se apressado nas últimas páginas. Talvez tenha receado de deixar um livro “sem fim”, ou estivesse de olho nos lucros da adaptação cinematográfica, sinônimo de altas cifras, e eu não o culpo: o cara precisa pagar as contas. O final apressado me incomoda, mas não deixa de se encaixar na premissa da história. O livro todo é tão bom que eu me dei o direito de crescer demais as expectativas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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