Claudia Wallin: Um País Sem Excelências e Mordomias

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Neil Hannon declara, em uma canção de seu disco Fin de Siècle, que vai se mudar para a Suécia quando seu trabalho estiver terminado. Seja qual for o trabalho a que Hannon se refere, a canção leva o nome deste país que habita o imaginário planetário como lar do povo que criou uma das democracias mais evoluídas de que se tem notícia.

Claudia Wallin adota o ponto de vista da austeridade dos políticos e de outros servidores públicos, mas é impossível dissociar este resultado de outras características da nação sueca. O tripé sobre o qual se sustentam as conquistas suecas consiste em (a) transparência dos atos do poder, (b) alta escolaridade do povo e (c) igualdade social.

Tudo é perfeito na sociedade que nos brindou com Abba e Roxette, só para citar dois grupos musicais famosos do país? Não, não é. Mulheres ainda recebem salários menores do que homens, mas propagandas sexistas são censuradas pela mídia e pela população. A venda do álcool é monopólio do governo, que busca combater o alcoolismo, doença que é minimizada, no Brasil, pelos detratores de outras drogas. A publicidade direcionada a menores de doze anos é proibida. E, sim, os políticos e os juízes não possuem, nem de perto, os privilégios dos seus pares brasileiros.

Wallin compara Suécia e Brasil provavelmente porque são os lugares em que mais passou tempo de sua vida, sendo brasileira casada com um sueco. Contudo, a Suécia é um exemplo boa parte do mundo. Vários países contratam consultores suecos para entender e tentar aplicar o modelo de uma nação em que a corrupção é caçada diariamente.

Existe corrupção na Suécia? Existe. Assim como para Neil Hannon, o trabalho do diretor da Agência Nacional Anti-Corrupção não acaba. O setor privado, como de praxe, quer dar suas gulosas mordidas em um estado cujo tamanho horroriza qualquer seguidor de Milton Friedman. Como se observa em uma operação brasileira anti-corrupção chamada “Lava-Jato”, o dinheiro flui de empresas privadas para políticos que esquecem, convenientemente, de seus deveres para com as pessoas que os elegeram, contando com o silêncio da mídia tupiniquim.

Direitistas, tanto coxinhas quanto conservadores, decepcionarão certamente com a Suécia descrita neste livro. Ainda que o estado de bem-estar tenha sido deixado para trás junto com os anos setenta, o país nórdico ainda se caracteriza por ser uma democracia robusta, assentada sobre um imenso e influente estado, que cobra impostos altíssimos, fornecendo, por sua vez, serviços públicos de qualidade. Outra futura decepção dos paneleiros ignaros será a igualdade social vigente por lá. Os abismos entre salários estão ausentes, empregados domésticos são caríssimos. Assim como os servidores públicos, os suecos em geral não têm privilégios como os que têm os abastados do Brasil e de outras sociedades.

Pode ser que a Suécia, como tudo na vida, não dure para sempre. O país não é imune às crises econômicas mundiais, e os abutres das corporações rondam insistentemente esta utopia democrática. Cabe aos cidadãos conscientes de outros países observar e aprender com os erros e com os acertos deste país que está à frente de seu tempo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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