André Gide: O Imoralista

gide imoralista

O Imoralista é uma novela curta, cerca de cento e cinquenta páginas, escrita em prosa cuja deglutição não demanda maiores dificuldades e ainda provê algum nível de entretenimento. A orelha do livro declara que este livro é o primeiro de uma fase, de Gide, em que este passou a desenvolver o que viria a ser seu estilo particular e que o levaria ao ápice em Moedeiros Falsos, romance que figuraria em um estilo moderno junto a, por exemplo, o Contraponto de Aldous Huxley.

A mim, entretanto, parece que O Imoralista figura antes como um resquício remoçado do romance do século XIX do que um prenúncio das modernizações que sinalizariam o início de um período de longa agonia do estilo, pontuada aqui e acolá por uns lampejos de genialidade. Engana-se quem acha que não professo amor ao romance do século XX e de sua extensão no século XXI, assim estaria equivocado quem pensasse que não vi valor no presente volume.

Se considerarmos a época em que o livro foi escrito, Gide demonstra singular coragem em suas diretas digressões sobre o homossexualismo latente de seu protagonista, que se estendem, como a biografia do autor explica, até sua vida pessoal. A prosa é moldada pela estética novecentista, ainda juncada de grandes arroubos românticos em seus cenários típicos. O Imoralista parece, quando na Suíça, por exemplo, caminhar sobre o trilho de Victor Frankenstein, cheio de dúvidas e de sensações que não compreende, preso a um casamento que não se consegue dizer se é feliz ou simples imposição social ou familiar.

O romance só escapa a seu século de origem quando se lança ao passado distante, o que fica claro na formatação da narrativa, que usa três amigos, ajambrados apressadamente, para servir de estofo para a conversa do autor com o leitor, materializando-o e facilitando os esforços de abstração. Esta moldura não chega a estragar as cenas de sua tela, mas, fosse eu o editor, a eliminaria sem pruridos.

O protagonista vive num conflito recorrente com as instituições que moldaram sua existência. Vive de rendas, casa por obrigação, quase morre de tuberculose, desconfia ativamente dos métodos da medicina de sua época, especializa-se em frivolidades históricas que, percebe, logo estarão efetivamente fora de moda. O Imoralista vale por trazer à tona estas mesmas questões que a passagem de mais de um século antes maquiou do que resolveu.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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