Ensaio sobre uma certa cegueira

noseeworker

As manifestações ocorridas, respectivamente, em 13 e 15 de Março do ano corrente, foram acontecimentos extremamente propícios como ferramentas para entender as facetas da sociedade brasileira atual. Eu gostaria de focar em um detalhe, que saltou-me aos olhos, tanto nos gritos de quem desfilou no final de semana quanto nos argumentos que se sucederam no restante de Março, e ecoam novamente fortes com a conflagração do que se convencionou chamar de “PEC da terceirização”.

Ouço, repetidamente, manifestações de orgulho em “ser trabalhador”, em “não ter tempo para protestar durante a semana, como estes vagabundos” da outra patota. Uma certa cepa de brasileiros se regozija por trabalhar bovinamente, sem questionamento. Estas pessoas acreditam em uma espécie distorcida de sonho, algo similar ao “sonho americano” que Michael Morre disseca em “Cara, cadê meu país?” Há compatriotas meus que acreditam realmente que todos os brasileiros têm chances iguais, creem em uma vaga meritocracia que elevaria o mais humilde dos catadores de lixo à ribalta dos poderosos, desde que esta pessoa se esfalfasse trabalhando.

A meritocracia brasileira funciona muito bem para as classes abastadas. Os abismos entre os salários consistem em um dos pilares de uma desigualdade brutal, sem o alívio do que se convencionou chamar de mobilidade social. Há os casos isolados dos vencedores, que vieram das palafitas, rompendo barreiras e chegando ao clube dos fumadores de charutos, quiçá de jogadores de golfe. São raros. São como aqueles centenários e aquelas centenárias, que fumaram a vida toda, comeram banha de diversos animais em doses nada homeopáticas. São pontos fora da curva, anomalias que a estatística prevê em seu manifesto da fragilidade da capacidade humana de descrever seu entorno em equações onde as causas levam a efeitos previsíveis. Escaladores sociais raramente executam suas respectivas ascensões sem deixar seus princípios ou cabeças pisadas para trás ou mesmo um rastro indefectível de corrupção coberta pelo doce, porém curiosamente azedo, glacê da hipocrisia.

O sujeito brande sua bandeira de “trabalhador” sem imaginar de onde venha esta tradição, presumivelmente tão nobre, que justifica todas as suas vociferações contra, vejam só, outros trabalhadores. A devoção ao trabalho é relativamente recente. Ela foi construída metódica e violentamente a partir da revolução industrial, onde a acumulação de capital dos antigos proprietários de terras se expande numa curva meteórica ao teto. Os pobres idiotas são cooptados, às vezes à força, às vezes com promessas encantadoras de uma tal mobilidade social que, como comentei um pouco antes neste texto, é uma falácia, um tocar da flauta do instrumentista de Hamelin para ratos e camundongos, assim dóceis, seguirem-no pelas ruas.

O vocábulo “trabalho” deriva do latim de “tripalium”, um instrumento de tortura. “Labor”, por sua vez, deriva do latim para “esforço penoso”. Como escreveu Marilena Chauí, “Não é significativo, aliás, que muitas línguas modernas derivadas do latim, ou que sofreram sua influência, recuperem a maldição divina lançada contra Eva usando a expressão ‘trabalho de parto’?” A massa ignara dos trabalhadores zumbificados pelas promessas do capitalismo, pela anestesia contínua do consumismo movido a propaganda, bestializados pelo telejornal e pelo restante da programação do Leviatã televisivo, se outorga a subtração à discussão racional, adquirem esta pretensa intangibilidade aos argumentos de esquerda pela adesão ao culto de adoração ao trabalho. “Se bato meu ponto bovinamente de oito a dezoito, pronto, não preciso mais pensar nada, e meus argumentos são todos automaticamente validados, eu não preciso participar da política, e posso me dar ao luxo de desfilar com bandeiras do Brasil enquanto sonho com um apartamento em Miami”.

A agir assim, o indivíduo se entrega de bandeja à manipulação, passa a ser o idiota útil que enche de sorrisos quase orgulhosos o rosto do banqueiro. Este “trabalhador”, além de, possivelmente, enriquecer o rico, contribui para uma sociedade onde grassará, pela desigualdade social, o império da violência e da insegurança. O idiota útil brande suas bandeiras contra inimigos mortos ou inexistentes, enquanto, ali do lado, aprova-se a extirpação dos direitos trabalhistas pelos quais tantos deram seu sangue. Este trabalhador, ironicamente, não pode ser acusado de falta de dedicação ao seu patrão. Este zumbi do capital repete o discurso de seu opressor, oprimindo os outros trabalhadores em nome de seu quinhão miserável numa sociedade de posições congeladas. O trabalho, cada vez mais, cega o homem em lugar de dignificá-lo.

Neste momento, o leitor pode pensar que eu me proponho a cruzar meus braços, a cessar meus esforços de sobrevivência, e nada estaria mais distante da verdade. Proponho, em vez disso, que o fruto do trabalho pertença a quem o executou, e que o ser humano trabalhe o suficiente para viver, que não se esfalfe a buscar acúmulos inúteis de riquezas e cacarecos do universo consumista. Proponho que os olhos estejam abertos, que o esforço suficiente crie a riqueza necessária para gozar a vida, e que não seja subtraído por este opressor tão bem vestido, esta “autoridade” cujo poder assenta-se sobre a dádiva suja e vil do dinheiro e da acumulação de capital.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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