Othon M. Garcia: Comunicação em Prosa Moderna

othonprosa

Em uma das minhas primeiras visitas a São Paulo dentro da minha prática do aikidô, escapei da Liberdade por alguns minutos, e me enfiei num sebo das redondezas. A quantidade imensa de exemplares me encantou ao mesmo tempo que me saturou. Os sebos de Florianópolis, na época, eram pouco mais do que depósitos de livros velhos, ajuntados sem o cuidado de configurar uma coleção válida, pensada por um organizador consciente e conhecedor. As coisas mudaram por aqui, e falo disso qualquer dia. Voltando ao começo do século XXI, eu saí do sebo paulistano com dois exemplares, um dos quais eu leria apenas quase quinze anos depois. Tratava-se, e ainda se trata, de Comunicação em Prosa Moderna.

Minha atração por este livro se deve a uma fantasia, que eu alimentava na época, de me tornar um escritor nas férias ou em qualquer outro momento de tempo livre que se apresentasse. Esta motivação segue hibernante, e pode ser que haja um romance escondido nas minhas entranhas. Ou mais de um. Por ora, leio muito e escrevo de vez em quando. Como agora.

O livro de Othon M. Garcia, vim a descobrir, é, ainda que igualmente excelente, algo diferente do que eu imaginava. O texto foi revisto ao longo das quase duas dezenas de edições, mas mantém muito do estilo do que se escrevia num Brasil recém abatido pelo golpe militar de 1964. Há de se esquecer o leitor dos pontos datados, e focar no objetivo principal de Garcia: treinar o estudante para que suas ideias sejam devidamente representadas.

O desavisado pode pensar que se trata de um livro de gramática, e estaria redondamente enganado. Garcia puxa algumas lições essenciais de diversas disciplinas, e as condensa, como o faria um fabricante de espadas, num arcabouço de técnicas que torna o leitor atento apto a expressar de forma coerente e consistente seu pensamento. Em tempos de idiotice jorrando das redes sociais, o texto de Garcia se mostra ainda mais necessário, quase que urgente.

A arte de bem escrever é mais do que um maneirismo antiquado, e cada página reforça esta noção. O ato de escrever, ainda que não se aproveite o resultado impresso no papel, organiza as ideias, relaciona os significados, ajuda-nos a criar um ecossistema mental mais saudável, civiliza a sociedade, eleva o nível das discussões ao mesmo tempo que mitiga os brados irracionais dos apaixonados. É, repito, uma arte vertida em um manual que a desvenda em um conjunto de técnicas que não só pode ser usado por qualquer um, mas deve. Escrever bem é requisito para entender a sociedade e mudá-la. Negar isto é atirar-se voluntariamente na vala dos vociferantes que devoram os descalabros de uma mídia vendida e corrupta.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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