Christian Jungersen: A Exceção

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Há pelo menos dois vieses muito excitantes no viciante romance de Christian Jungersen, assédio moral e genocídio, que o autor manobra com maestria, mantendo tensão crescente, que explode apenas nas últimas dezenas de páginas. Sim, ele consegue te prender sem grande dificuldade nas primeiras quinhentas e poucas páginas.

Sendo sincero de uma forma quase dolorosa, a ação vertiginosa no trecho final pareceu-me um tanto deslocada, como se Jungersen preferisse, repentinamente, ser mais lembrado pelos lances grandiosos e violentos do que pela construção lenta e insistente de suas personagens. A transposição deste livro para o cinema é bem óbvia, e eu acho que David Fincher seria a escolha perfeita, embora Garota Exemplar, seu último filme, também foque em uma psicopata. Bom, qualquer coisa seria melhor do Benjamin Button, então podemos sonhar, não podemos?

A Exceção explora o ambiente de trabalho do que poderia ser um escritório qualquer, mas que, afortunadamente, é um órgão dinamarquês que documenta genocídios em diversos países e diversas épocas, permitindo o livre trânsito entre extermínios em massa e maus tratos dentro de um local limpo e com ar condicionado. Cada personagem é por si uma fonte generosa de patologias psicológicas. Jurgensen descasca as camadas de uma personagem até que os fatos sigam num curso de ação que parece inevitável, então pula para outra personagem, subvertendo boa parte do que o leitor havia construído até o momento. Outro truque é a manipulação dimensional: ele passa de uma mulher sendo maltratada por colegas de trabalho para milhões de pessoas sendo torturadas e/ou estupradas por vizinhos de outras etnias, e volta para estudar o passado tenebroso de uma das funcionárias para em seguida descrever um sequestro em uma favela africana. É quase como se a cada página nos fosse apresentado um novo prato do cardápio aparentemente infindável da crueldade humana.

Existe uma protagonista, embora Jurgensen tenha o cuidado de fazer os outros papéis terem uma consistência adequada, talvez o suficiente para termos a devida intensidade da manipulação que as pessoas sofrem em seu ambiente de trabalho. Todas as personagens estão jogando, e alguém poderia fazer uma referência rápida aos reality shows que infestam a grade televisiva. O pano de fundo motivador, para que ninguém deixe o tabuleiro, é a crise do welfare state dinamarquês; os empregos são raros, então os dentes rangem em todas as mandíbulas.

Os jogadores estão em diferentes níveis, e possuem diferentes armas. Há manipulações políticas, há invasões de domicílio, há identidades falsas, casos amorosos constrangedores, mortes violentas, emails ameaçadores; de certa forma, é um romance de espionagem também. Um aspecto curioso é que certas informações são colocadas para o grupo todo, mas não são todos que têm a capacidade entender e aplicar o que lhes é entregue. Como em um bom jogo, as habilidades variam entre os oponentes, tornando a partida ainda mais interessante.

Ao terminar este romance, seu conhecimento enciclopédico, do pior do ser humano e de suas motivações, terá aumentado consideravelmente. Além disso, o funcionário de escritório vai perceber que é pouco mais do que um rato de laboratório em um jogo doentio que poucos alcançarão a vitória e esta, provavelmente, será fugaz, apenas um ponto de partida para mais rodadas onde a sobrevivência, mais uma vez, estará em jogo.

Jurgensen, sem grandes malabarismos literários, consegue imbuir de relevância o que poderia ser apenas mais um thriller psicológico. A Exceção é um divertimento aterrador que vai mudar seu modo de enxergar a rotina no trabalho. Você descobrirá que o escritório pode ser bem mais perigoso do que fazem crer as tiras diárias do Dilbert.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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