Hanif Kureishi: O Dom de Gabriel

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Hanif Kureishi faz parte de um time de escritores para os quais a contemporaneidade é um revisitar recorrente das galerias de um passado glorioso. O universo ficcional de Kureishi contém diversas versões alternativas ou depuradas de astros populares e celebridades diversas. Algumas, astros de porte, sobreviveram, outras, satélites e asteroides nomeados por combinações de letras e números, são sombras se arrastando após serem expostas a uma glória intensa que a elas não pertencia. Nesta Londres imaginada com pedaços de realidade, Kureishi escreve uma fábula encantadora sobre um adolescente chamado Gabriel.

Gabriel é o produto do relacionamento de dois dos corpos celestes menores a que me refiro logo acima. Ele conversa com seu irmão gêmeo falecido e sabe, em seu íntimo, que alguma espécie de realização artística o espera. Talento pulsa dentro dele, ainda que ele só consiga confiar nisso depois de lhe contarem que talento é algo inato, e não algo que possa ser repassado por seus antepassados.

Os pais, Rex e Christine, sim, são fracassos. Neste ponto reside uma das melhores reflexões de Kureishi neste livro. Christine sofreu por Rex ser um tamanho perdedor, e não quer que o mesmo aconteça com Gabriel. Ela leva mais tempo para aceitar que há uma diferença essencial entre o pai e o filho; até que isto aconteça, insiste em que o filho siga a carreira de advogado. Gabriel, durante o trajeto de descobertas tão típico da adolescência, conhece pessoas como seu pai, pessoas sem talento, mas que, diferente de Rex e Christine, souberam manejar seus próprios e parcos recursos para, mais do que sobreviver, vencer na vida. São estas pessoas que incentivam Gabriel a seguir sua intuição.

Kureishi demonstra rara habilidade ao construir o mundo de Gabriel e seu ponto de vista do que ocorre. Gabriel é centrado em si mesmo. Apesar disso, boa parte das suas aventuras envolve pensar em resolver problemas de seus familiares e de outras pessoas próximas. O que é coerente se pensarmos em quanto um adolescente é dependente de seus pais e outros entes próximos. A esperteza de Gabriel, assim como magnificência, é convincente. Vale ressaltar a engraçadas passagens em que ele interage com Hannah, a refugiada da Cortina de Ferro que faz as vezes de cão de guarda para que a mãe de Gabriel possa trabalhar.

O Dom de Gabriel exala uma ingenuidade que pode desanimar espíritos mais cínicos, mas não consiste em um defeito se o leitor entrar no clima de fábula contemporânea. Se funciona com Jean- Pierre Jeunet, porque não poderia funcionar com Kureishi? O texto, como tudo que li de Kureishi até agora, poderia ser vertido facilmente em película, e é uma pena que Jake Gyllenhaal, embora moreno, não tenha mais quinze anos.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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