Darwin e Romeu e Julieta

american gothic

“Uma história sem extremos ninguém para para ouvir” é o que Ian Ramil canta em uma das faixas do seu primeiro disco solo. Ou algo assim. Esta máxima se aplica a muitos setores da existência humana, entre eles os relacionamentos sentimentais e/ou sexuais. Ninguém se importa com os casamentos entre pessoas de mesma classe social, os casos que ocorrem em situações óbvias como um roteiro de cinemão norte-americano. O que chama chamas aos olhos são as grandes disparidades, os casais que extraem exclamações com sua ousadia e suspiros por sua coragem. Menos a segunda situação, e mais a segunda, isto poderia ser provado estatisticamente.

O filho do nacionalista ucraniano Taras Bulba se perde em amores por uma nobre polonesa, e cai pelas mãos nuas de seu pai enfurecido. Um conquistador espanhol passa para o lado inca ao conhecer uma princesa nativa daquele povo que havia dominado o altiplano junto aos Andes, e morre lutando contra seus antigos camaradas. Boonyi, uma muçulmana descrita no livro de Salman Rushdie, salta duas barrreiras; primeiro, casando com o equilibrista pandit Shalimar do título, e depois tendo uma filha com o amante, o judeu voador Max Ophuls, filha que é saqueada pela ex-esposa de Ophuls, a incompleta Rata Cinza.

Este amor romântico passa a ser exaltado efusivamente no século XIX, cuja literatura transborda de exemplos de dores sentimentais lancinantes ao ponto do tédio sufocante. Os arroubos românticos, mais tarde cristalizados na escrita pomposa dos simbolistas, felizmente tiveram seu ápice e sua decadência naquele século, e poucos espécimes conseguiram escapar para o século seguinte, onde sobrevivem em guetos, sem causar maiores incômodos ao universo literário.

Deste mirante afastado, sinto-me à vontade para encontrar, enfim, virtudes nestes descalabros que considero tediosos em adolescentes, e vergonhosos em adultos. Ao romper com o status quo, o amor romântico quebra a monotonia do que seria uma correta sucessão genética dentro de um grupo de famílias. Com isso, viabiliza-se uma abertura do leque de opções genéticas, que se configura, na prática, na banca de apostas da Natureza. O efeito é melhoria das chances da espécie humana como um todo.

Nada mais natural então que nos interessemos por histórias que rompem qualquer planejamento de sucessão. As mutações se beneficiam da mistura de genes, e são elas que dão base à evolução. De um ponto de vista do design, o amor romântico, ou as histórias com extremos, viabilizam as inovações de ruptura, quebrando paradigmas estabelecidos, e experimentando novas combinações. Que podem ser uma porcaria. O que se poderia esperar dos filhos de Romeu e Julieta? Poderiam ser poetas, poderiam ser idiotas, cantaria o Morrissey. Eu não apostaria uma moeda neles. Mas que seriam inovadores, ah, eles seriam.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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