George Miller: Mad Max – Road Fury

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Pode escrever: não vai ter filme de ação, neste ano, que vença Mad Max: Estrada da Fúria. George Miller parece ter passado as décadas, que separam este último capítulo da saga de Max do meia-boca Cúpula do Trovão, fermentando ideias geniais e depurando seus conceitos. A começar, nada de crianças protagonizando. Este é provavelmente o maio erro de Cúpula. Miller manteve o kitsch exatamente na medida, como no maravilhoso carro de som, com sua guitarra que ruge emudecida entre os ruídos monstruosos das máquinas e das armas.

A premissa é muito similar à do segundo filme, justamente o que contava com as maiores doses de adrenalina até o momento. A tensão, entretanto, é sempre potencial em Estrada, nunca se concretiza em torturas, mas está sempre presente no contexto e nas entrelinhas, atropelada pela velocidade insana das cenas de ação. Trata-se de um filme que encarna o ideal de muitas bandas de rock dos anos oitenta, principalmente The Cult: velocidade, simplicidade, algum arcabouço de misticismo repaginado, e mais velocidade.

Miller seria perfeito para dirigir uma adaptação de Motoqueiro Fantasma, com roteiro de Garth Ennis, claro. Está tudo lá. O deserto imenso como uma catedral cujo teto é o céu azul, os vilões deformados, as fêmeas poderosas, as motivações implacáveis, e uma noção de que, no frigir dos ovos, não há lugar como aquele de onde viemos, por mais horroroso que ele nos pareça. Esqueçam Nicholas Cage, claro; Miller não conseguiria erguer a carreira de Cage nem que tivemos uma carregadeira de palets.

Passei quase todo o filme me surpreendendo com as insanidades perpetradas pelos meias-vidas e seus líderes. As coreografias são criativas, dignas de um espetáculo de dança. Há poucas cenas efetivamente nojentas: Miller deixa o único momento realmente gore para a retratação do vilão. Nada de irreais lutas demoradas; a urgência domina os golpes, e a câmera, como todos os envolvidos, não se demora a observar agonias ou estertores. Neste frenesi onde só há sobreviver, o amor existe como um cacto em meio à areia. É de uma beleza agreste, demanda atenção para perceber suas manifestações.

Há duas citações ao Hulk, o verdão da Marvel. Primeiro, o visual do vilão malvadão, que remete ao Hulk distópico da realidade pós guerra nuclear de Futuro Imperfeito, a genial história de Peter David em que Banner enlouqueceu após sobreviver ao inferno das bombas, matando todos os heróis e criando uma cidadela onde mantém o povo dominado pelo terror. Num segundo momento, Max deixa a cena, com um último olhar para Furiosa, tal como faz nos filmes anteriores, e segue seu rumo, tal qual o doutor Banner do seriado do Hulk nos anos oitenta.

E já que estamos falando de Marvel, só um filme maravilhoso como este Mad Max para tirar o ranço do bobo segundo Avengers. Joss Whedon podia beber das areias do filme de Miller em vez de se empapuçar com as facilidades preguiçosas do universo de Michael Bay. Mas agora é tarde.

Há quem diga que o filme é feminista. Pode ser que seja, no sentido que não é escrotamente machista como quase todos os blockbusters que você viu a vida inteira. A tela é bem dividida entre os protagonistas. Nicholas Hoult mostra o quanto é versátil; é uma promessa. Charlize Theron entrega a performance prometida no trailer, um dínamo de fúria em direção a um paraíso perdido de que nem lembra direito. Tom Hardy é o que se espera de Max Rockatansky, ou seja, um cara torturado, de poucas palavras, movido por um senso desesperado de sobrevivência, mas que consegue ser a pessoa certa, fazer a coisa certa.

Corre no cinema porque tão cedo não vai aparecer um filme de ação tão bem resolvido quanto Estrada da Fúria.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para George Miller: Mad Max – Road Fury

  1. Vinicius disse:

    Acabei de voltar do cinema satisfeito. Principalmente com som e com a trilha. Exceto talvez pela voz de Bane com amigdalite do Tom Hardy. O Hoult tá no caminho certo e é impressionante como eu ainda pegaria a Charlize Theron mesmo careca, coberta de porrada e sem um braço. Ela é demais.

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