Salman Rushdie: Shalimar, o Equilibrista

shalimar

Demorei um tanto, provavelmente quase cem páginas, para efetivamente entrar em Shalimar, o Equilibrista, romance de Salman Rushdie. Minha primeira impressão é a de que Rushdie se propôs a fazer algo grandioso e sério, e sua primeira medida, para garantir o impacto, foi burilar cada parágrafo com extremo cuidado. A abordagem resultou em parágrafos longos, onde reside uma vontade de que nenhum detalhe passe por ambíguo, de que as motivações de cada um dos personagens destas epopéias enlaçadas e dolorosas escape a uma interpretação maniqueísta.

Outra hipótese, igualmente viável, que é eu leia Shalimar sem conseguir não lembrar de Golimar.

Rushdie é formado em história, de forma que seus livros notoriamente apresentam ao menos duas camadas de leitura. Há as tramas, atraentes e complexas, e há também um pano de fundo cronológico, bem desenhado, com o qual as aventuras e desventuras pessoais se relacionam intimamente. As personagens de Rushdie dificilmente escapam de seu tempo. O trecho de tempo abordado aqui é longo, quase toda a vida do personagem Maximilian Ophuls, e duas grandes conflagrações histórias formam o fulcro da narrativa: a Segunda Guerra e a guerra na Caxemira. O leitor não escapa de uma sagaz aula de história com claros reflexos, repetitivos, nos dias de hoje. Pessoas sofreram, e pessoas continuam sofrendo as mazelas da guerra e dos interesses econômicos assim como da ignorância religiosa, e Rushdie é um perito no assunto.

O horror nunca se banaliza na escrita de Rushdie, nem sua vontade de mostrar os absurdos religiosos e os absurdos seculares. O judeu voador, herói de um arco, será um monstro, talvez inconsciente, de outras tragédias, que se abatem inicialmente sobre pessoas estranhas para no final retornarem à sua fonte num espetáculo de sangue e motivações iradas. Há surtos de heroísmo, criaturas épicas que emergem em momentos críticos, e há também lampejos de realismo fantástico em certos lapsos da narrativa, onde o tempo se comprime e as relações de causalidade trivial se perdem. Como na vida.

Se tenho algo a reclamar é por Rushdie ter construído uma tensão de quatrocentas páginas e várias décadas apenas para desembocar uma página em branco. Esta última imagem de confronto é congelada após páginas e páginas de sugestões inconclusivas de que como a partida termina. Sim, Rushdie tem o direito de usar esta ferramenta narrativa e deixar o leitor com o ônus da conclusão; sua reputação como escritor sagaz apenas ganha pontos com isso. Rushdie, seu calhorda, porque me deixaste com este abacaxi caxemirense para descascar?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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