Ronald W. Dworkin: Felicidade Artificial

felicidade artificial

A sociedade atual não gosta de gente infeliz. Pode ser que nunca tenha gostado de gente infeliz, mas não tenho amostragem para falar sobre as épocas em que eu não estava caminhando sobre a Terra. Ser feliz, hoje em dia, é uma obrigação. Numa era em que publicações duvidosas definem que existem 50 ou 100 ou mil livros ou filmes ou discos que devem ser ouvidos, e há gente que acredite que isto é verdade, não é improvável que haja quem se culpe por não ser feliz.

Minha melhor metáfora de felicidade é um pacote de pipoca Bilú: para cada vinte pedaços de isopor orgânico de aparência duvidosa, você encontra uma pipoca perfeita, doce na medida, crocante, que te faz devorar de forma resiliente as vinte bolotas amorfas seguintes. Eu já comprei uma outra pipoca doce assada, concorrente da Bilú; a abordagem dos caras é fazer todas as pipocas serem igualmente doces. Péssima ideia. Odeio. Detesto.

A felicidade é este arquipélago de ilhas fulgurantes e fugazes distribuídas no meio de uma mar raso de decepções, dificuldades, desencontros, cotidiano, tédio, esforço, dias repetidos e outras ocorrências não tão legais. Desconfio que o ser humano não saiba perceber se está feliz a não ser pelo contraste assim como postulo que nossa mente não suportaria o impacto de uma eventual felicidade contínua.

Ainda assim, nossa sociedade considera a infelicidade uma chaga, uma doença. Outro aspecto da nossa sociedade é o foco no curto prazo, em soluções rápidas e certeiras, de aparente eficácia. As emoções te fazem perceber que estás infeliz? Amputem-se as emoções então!

Quando comecei a ler Felicidade Artificial, pensei que o autor focaria nas drogas sintéticas. Mero engano. Ronald Dworkin organiza as fontes de felicidade artificial em três grupos: drogas psicotrópicas, medicina alternativa e exercícios compulsivos. Estas três abordagens são usadas pelos médicos de atenção primária que, por sua vez, são a infantaria dos planos de saúde, máquinas de gerar gordos lucros enquanto fingem cuidar do nosso bem-estar. Dworkin fala de uma classe de médicos-engenheiros, a quem apetece pensar o ser humano como uma máquina. Estes profissionais encontraram justificativas, cientificamente equivocadas, para as três abordagens acima. As drogas sintéticas baseiam sua aplicação na alegada deficiência, em certas pessoas, de certos elementos químicos. A medicina alternativa utiliza efeito placebo para atuar sobre a documentada capacidade humana de não sentir dor conforme certas condições psíquicas ou de stress. Os exercícios compulsivos redirecionam os objetivos da pessoa para a evolução do corpo e as realizações esportivas.

Toda fuga da infelicidade é prejudicial. A infelicidade é justamente uma emoção que nos tira da inércia, que nos dá forças para sair de uma situação indesejável, que nos força a tomar decisões difíceis. A supressão da percepção de infelicidade resulta em seres humanos apáticos, que não mais se importam em fazer as coisas corretas, que não mais se preocupam com o que outros seres humanos pensam deles. Numa sociedade individualista assolada pela fuga fácil da felicidade artificial, não é difícil entender as motivações de pessoas que defendem armas, pena de morte ou redução de idade penal. E só vai piorar a medida que adotamos o modelo de saúde mercantilista que domina os estados unidos da América.

Tento passar aqui em linhas gerais o conteúdo do livro, mas sinto-me limitado e incompetente. Acho particularmente mais interessante que você mesmo o leia. É um livro rápido, duzentas e poucas páginas, escrito em linguagem agradável e clara, entremeado de casos da vida profissional de Dworkin.
O autor é formado em medicina, tem PhD em filosofia política, e se interessa por aspectos sociais e religiosos, discorrendo habilmente sobre a ideologia dos médicos-engenheiros e sobre o perigo que a felicidade artificial representa para a humanidade.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s