Leandro Leal: Quem vai ficar com Morrissey?

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Grandes escritores escreveram grandes livros sobre assuntos banais. Escritores banais escreveram grandes livros sobres assuntos grandiosos. Apesar disso, é improvável que escritores banais escrevam um grande livro sobre assuntos banais.

Quem vai ficar com Morrissey? parte de um gancho poderoso: o próprio cantor mancuniano, ídolo de dezenas de almas suburbanas introspectivas demarcadas pelo costume de usar óculos de aros grossos, roupas fora de moda e topetes generosos. A imagem da capa é cativante; sua linguagem quadrinística desvela o conteúdo pop, e o semblante da figura central sorri de um jeito misterioso que Morrissey divide apenas com a Gioconda pintada no minúsculo quadro de Da Vinci que ocupa hoje o centro das atenções dos turistas que vão ao Museu do Louvre.

Leandro Leal, desconfio, é um bom jornalista. Jornalistas, por sua vez, dificilmente conseguem atravessar a barreira que separa a escrita de um periódico da escrita, que talvez demande um “E” maiúsculo, de um romance. Ao presente livro falta personalidade estilística. Sua escrita se prende a cacoetes de outras mídias, como blogs e redes sociais, acha graça em trocadilhos bobos, coerentes com a personalidade quase inexistente de seu protagonista.

Ah, Fernando, como você é chato. Inseguro, sem ambições, não consegue nem mesmo penetrar na personalidade de seu maior ídolo. Exemplo? Morrissey é um dos mais famosos vegetarianos vivos, e o livro, do qual já ultrapassei a página 200, não lembra disso. Aliás, ao contrário, Fernando se alimenta de acordo com sua personalidade infantil, bebe horrores, e acha que o paraíso reside em pedaços gordurentos de animais mortos bem passados. Fernando, apesar de eu achá-lo um chato, não parece estar deslocado nos tempos atuais. Em Breaking Bad, seriado extremamente famoso, Fernando poderia ser mais uma daquelas pessoas chatas e feias que não agregam nenhum valor à humanidade.

Voltando ao parágrafo inicial deste texto, entretanto, eu diria que grandes escritores escreveram grandes livros com protagonistas muito entediantes.  Até porque alguém precisaria falar de gente entediante em algum momento. Talvez este livro aqui funcionasse se Leal tivesse mais tempo para maturá-lo; parece faltar ao texto um ciclo de diversas revisões, o que poderia imprimir a ele uma unidade orgânica. A leitura deste livro dá uma sensação de que, se estivéssemos falando de gastronomia, faltou tempo de cozimento para que as partes do molho conversassem melhor entre si, proporcionando a gloriosa sensação que nos acomete quando o resultado do prato transcende a soma dos ingredientes que o compõem.

Existe uma escola de escrita de romances, e existe uma técnica para o romance. Talvez não resulte em grandes romances, como os de um Faulkner, mas em romances regulares. Não foi o caso aqui. Um exemplo de ausência danosa ao texto do presente romance: as descrições são pobres, tornando difícil o leitor se aclimatar e se identificar. Leal fala apenas para seus semelhantes, paulistanos que circulam pelos mesmos lugares que ele circula, e exclui aqueles que não sejam filiados a esta agremiação. Conheço vários dos lugares citados, e mesmo assim não consegui me conectar às situações. O que faltou? Cores, formas, cheiros, sons, tudo o que nos atinge quando estamos em dado lugar. Chegar ao nível de um Graham Greene é pedir demais, eu sei, mas não custava tentar.

Se fosse apenas mais um livro bobo, beleza. O problema é que este livro bobo usa a efígie de Morrissey para se promover. Por mais que a intenção tenha sido pura e boa, o resultado é pobre, bem abaixo do que o nosso querido Morrissey esperaria inspirar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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