O corpo que ninguém escuta

MindOverBodyMorrissey canta, em uma gravação dos primórdios dos Smiths, suas dúvidas: Afinal de contas, é o corpo que manda na mente, ou a mente que manda no corpo? O espirituoso letrista mancuniano, me parece evidente, usa esta retórica falsamente boba para falar de seus impulsos no sentido de quebrar seu tão divulgado celibato, comemorado aos berros em colinas que assim parecem vivas. É um tanto óbvio que ele se inspire em seu ídolo mais imediatamente reconhecível, outro egresso, de alguma forma, de um lar irlandês. Wilde dizia que não havia remédio para a mente tão bom quanto os que o corpo providenciava, e celebrava a via contrária, em qual a mente se revelava a melhor cuidadora de um corpo enfermo.

Talvez fosse diferente no século XIX, talvez não, mas o fato é que hoje se vê tantas mentes esculachando seus respectivos corpos. Às vezes estas mentes são tão abrangentes que conseguem até mesmo machucar outros corpos num insidioso esforço, muitas vezes homeopático, de derrubar as defesas frágeis de outras mentes. Daí provém minha desconfiança de que a mente possa, efetivamente, ajudar a curar o corpo; estatisticamente me parece o contrário. Somatizações várias assolam a nação, varrem os vales como pragas bíblicas, gafanhotos metafóricos a semear dores nas costas e depressões de matizes mil.

Acredito, claro, que a meditação possa nos ajudar a achar um centro e, com isso, combater a ansiedade que nos mina a postura corporal e os bons hábitos alimentares, entre outros benefícios. Todavia, penso que é mais provável que o corpo, hoje, é que tenha muito mais a nos dizer, a nos ensinar.

Este corpo aí que sofre com o sedentarismo, que pena com a má alimentação, que se vê refém das glutonices resultantes de ansiedade e das cervejas que, de boa, nem precisávamos tomar. Este mesmo corpo que xingamos quando nos avisa, através da dor, que algo definitivamente está errado, o pobre corpo que se deforma em horas de cadeira de escritório seguidas de horas de sofá de sala de televisão.

A mente precisa parar e escutar o corpo. É ele quem percebe a gravidade, é ele quem sabe, portanto, onde está o chão. Na realidade e na metáfora. É ele quem dá lastro e forma aos nossos voos mentais, o mesmo corpo que nos informa, com a voz soterrada por anos de descaso, que deveríamos perceber que uma dada emoção nos tensiona o peito, nos aperta o coração almofadado de intensidades que não mais há.

Despeço-me. É chegado o momento de escutar mais do que falar.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para O corpo que ninguém escuta

  1. humberto disse:

    incrível este texto

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