Philip Roth: O Professor de Desejo

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Levei um tempo até tirar este Roth da prateleira para ler. As perspectivas não eram boas, a começar pelo título, Professor de Desejo, que me levou a buscar, na ficha técnica, por uma tradução livre terceirizada para algum distribuidor nacional de filmes e encontrar uma literalidade nocauteante que não ajudou em nada a dissipar o incômodo. Segue-se que a capa não se esforça para ajudar: um umbigo, logo acima do zíper aberto de uma calça, é o tipo de erotismo soft que o Círculo do Livro colocava para apresentar mais de um de seus títulos. Tudo isto conspirava para que se tratasse de mais um Roth menor, do calibre moderado e um pouco decepcionante de Lição de Anatomia ou Diário de uma Ilusão. O texto principia no estilo afetadamente anfetamínico de Complexo de Portnoy e eu não tenho problemas com este livro, mas não penso que o mundo precise de um segundo Complexo de Portnoy.

Todavia, este foi o Roth por cuja aquisição desembolsei a menor quantia até momento, e nem estou considerando a correção monetária de compras mais antigas. Três e noventa no Sebo do Império, numa edição onde os pecados, menores, são de ordem conservacionista: a lombada está queimada de sol, tornando impossível saber título ou autor sem recorrer à localização geográfica na prateleira, ou à retirada temporária do exemplar, e uma das folhas de rosto arrancada, provavelmente para dar fim a uma dedicatória. Um pequeno crime, dado que amo dedicatórias a estranhos que foram os proprietários anteriores de livros que compro de segunda mão.

Ao texto, enfim. Roth não tem muitas novidades. São romances e mais romances em que judeus fazem o que Roth pensa que eles fazem melhor, ou seja, são infelizes. Neste caso, o protagonista passa boa parte da narrativa sendo infeliz e, no restante do tempo ele pensa, em meio às delícias de um casamento belíssimo, que vai ser infeliz em breve. Ele pressente que sua ânsia por autossabotagem vai rasgar o tecido de tão doce realidade, e derramar bile por cima de toda a sua alegria jamais sonhada. David se reconhece, junto com Helen e mais um punhado de infelizes, como uma espécie de monstro infiltrado em uma humanidade que, como ousam?, e propõe a ser simples e consistentemente feliz.

David tece considerações sobre autores e mais autores, e os leitores de Kafka poderão se deliciar com momentos onde Roth costura teorias sobre o romance ao visitar a cidade de referência de seu elucubrador maior, Milan Kundera. Não, há citação direta a Kundera, embora eu não tenha deixado de pensar no relativamente recente artigo onde o escritor checo declara sua admiração pela forma como, repentinamente, os personagens do romance passam a falar de e fazer sexo, e como isto é uma das virtudes da obra de Roth.

Roth se enfia dentro da cabeça de David de uma forma que exclui forçosamente a autobiografia, e escreve, maldito, sobre mim. Pode ser do momento, mas é bizarro como as desventuras de David se encaixam, num lirismo comovente e espontâneo, a episódios presentes, passados e, esta parte dói mais, futuros de minha própria vida. Eu que não sou judeu, não sou professor de literatura, não tenho um passado de pirotecnias sexuais, mas que me encaixo nos fragmentos de uma humanidade torturada por dúvidas, abalroada por hecatombes em canecas, assombrados por dilemas titânicos numa proporção que é a mesma de nossas vidas, patéticas ao serem vistas de cima tanto quanto assustadoras quando envergadas como os títeres que somos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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