Corporação, esta pobre indefesa.

disneycorp

O ser humano é uma criatura curiosa, e raramente passo um dia sem exercitar a antropologia involuntária. Hoje mesmo uma pessoa dedicou alguns minutos de sua atribulada existência a comentar um texto, divertidíssimo conforme percebi ao reler, sobre o primeiro episódio da acneica saga de Jogos Vorazes. Os ansiosos podem se atirar às grades, e pensar que tratar-se-ia de algum ser pré-pubescente vindo em defesa da nada indefesa Jennifer Lawrence, mas não, a indignação era dirigida a alguns comentários pouco elogiosos, e bem verdadeiros, que teci sobre as Livrarias Saraiva.

Eu me esforço para compreender pessoas que ficam irritadas quando se fala de alguma figura do seu panteão religioso. Eu entenderia melhor se este sentimento viesse por conta de maus tratos verbais a um ente amado, alguém da família, ou alguma criatura indefesa, que precisasse de defesa, enfim. Até consigo exercitar a empatia, e ser uma figura respeitável nestes casos. O que eu realmente não entendo é gente que defende corporações. Que defenda uma banda, vá lá, eu sou uma Poliana e acredito que deve ter alguma pessoa no mundo que não teve, como motivação inicial para empunhar uma guitarra, comer gente e/ou ter muito dinheiro e/ou se mergulhar em drogas durante o expediente. Mas corporações?

Tem a corporação do finado Steve Jobs; ele tem seus fanáticos, e é melhor não mexer com eles. Eu mesmo só não compro Apple porque acho caro demais, e é feito no mesmo inferno pseudo-comunista sem direitos trabalhistas que todos os outros. Tem também corporações esportivas, notadamente os times de futebol, ninhos de corrupção e ganância, gerenciados por crápulas abomináveis e adorados por hordas de sorridentes alienados que, de uma hora para a outra e à moda do Pateta ensandecido ao volante, se transformam em empaladores de torcidas adversárias. Há quem defenda o Luciano Huck e o Guga; vá entender.

O fundo do poço, entretanto, é quem defende corporações sem rosto. Ontem eu ganhei alguns xingamentos ao comentar alguns posts ridiculamente ruins da página Catraca Livre, que, em algum momento, me impressionou o suficiente para que eu a seguisse no feicetruque. Hoje, o camarada que defende a Saraiva. Já fiz compras na Saraiva, pela internet e na loja física. Na loja física, a única vantagem sobre os sebos que me apetecem é que ficam abertas até tarde como boas lojas de shopping que são. O que se configura em uma mão na roda quando se necessita presentear de última hora. Odeio presentear de última hora. Prefiro levar apenas minha cara de pau para a festa do que presentear de última hora.

O que uma pessoa ganha defendendo uma corporação sem graça como a Saraiva? Será um publicador pago? Será um robô se esforçando para passar no teste de Turing usando a abordagem dos selvagens comentaristas de portais brasileiros? A insalubridade me assombra.

Se você chegou até aqui, merece uma boa teoria, pelo menos. A minha é a de que as pessoas afundam em vidas medíocres e sem sentido, e passam, coerentemente, a adorar deuses medíocres, músicos medíocres. Consistência é algo que admiro e aspiro a. Quase chego a ter inveja. Mesmo. No longo prazo, seremos uma nação de idiotizados que consomem jingles de propagandas na rádio, como faz a policial de Sandra Bullock no divertidíssimo Demolidor, filme do Stallone com Wesley que preciso rever. Dublado talvez.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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