Ficção No. 58

sandgrain

Vaga pela praia por motivos que não ousa confessar. Esquadrinha a areia pálida entremeada de pontas negras de folhas que ali vieram se perder. Ao retornar desta distração monocromática, detém o olhar sobre seu próprio antebraço para descobrir, frio na barriga, que seu relógio se foi. Estaca embora prossiga caminhando, a sensação da perda se dissolvendo a partir de um torrão de açúcar em algum ponto da caixa toráxica. O relógio sem valor que não o de uma lembrança que agora não vem ao caso, uma coisa boba que só encontra eco em seu próprio coração, que não resiste a uma descrição de duas linhas. O relógio cujo segredo sem esfinge, enfim, guardava apenas para si.

Sofre ainda por alguns estilhaços de segundos, dor que não externa ainda, fugaz que é. A cúpula encantadora do  instante se desfaz em farelos ínfimos quando lhe retorna a lembrança de uma mesma perda dias atrás. Bobo. O relógio não estava em seu pulso pela manhã, e não esteve ontem. A caixa de aço, a pulseira vulgar de borracha, os botões desconfortáveis, todo o universo de ponteiros e atrasos se foi há dias. As notícias do acessório se perderam há algum tempo.

A subtração de um objeto ao cotidiano gera um vazio instantâneo na memória. Tão súbito, o desaparecer não se preenche de forma pacífica. Ao contrário: forma ondas, como em um lago onde se atira, em câmera lenta, uma pedra de peso considerável. Ao longo dos dias, estas ondas criam cristas periódicas que nos abordam em momentos aleatórios, cobram atenção de uma forma que nos faz desconfiar de uma insuspeita natureza vingativa dos objetos triviais inanimados. Estas flutuações nos alimentam com a ilusão de que se pode perder algo mais de uma vez, sem que tenhamos reencontrado tal objeto no período entre estas duas perdas.

Um ônibus passa não muito longe diante do ponto vazio. A areia não se move mais ou menos, apenas mantém seu balouçar preguiçoso de dia triste. As pernas pesadas de repente forçam a mente a retornar. Um último olhar se resigna a deixar o antebraço agora nu. Que colocar ali? Outro relógio? Uma pulseira? Viajar, talvez, deixar umas lembranças compradas se desmancharem sobre a pele, mas para pedir o que? Nem quer que o relógio volte, quer antes ser abandonado por esta sensação recorrente de que algo se foi, uma vez mais e repetidamente, acossado pelo fantasma inquieto e cruel que lhe relembra, a tempos, que se pode perder um objeto mais de uma vez.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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