William Gibson: Trilogia Sprawl

sprawl

Alguns escritores de ficção científica vislumbram um futuro ou vários futuros; outros criam universos dentro de variações de futuros prováveis operando pequenas alterações que chegam a efeitos poderosos depois de algum tempo. Estes universos justificam-se pelas histórias a serem contadas. Talvez esta seja a grande diferença do universo que William Gibson criou para sua trilogia: o Sprawl é mais do que um cenário, é um personagem em si.

E não faltam personagens cativantes. Desde o primeiro livro eles surgem, desenhados com poucos traços, muitas vezes apenas sugeridos. E vão ficando em nossas memórias afetivas. Fin, Molly, Petal, Kumiko, Bobby, Legba, 3Jane, Case, Angie, Mona, e segue a lista. Gibson tem a a habilidade de dar contornos mesmo aos coadjuvantes que bem mesmo chegam a ocupar as telas principais. Numa manobra inteligente de claro e escuro, ele nos conta sobre o quão badass é um oponente de qual nem mesmo saberemos o nome, porque o absurdo de um cargueiro robotizado pode derrubar dezenas de refrigeradores, sobre o mercenário, a mando de alguém que se tornou uma pessoa virtual.

Escrevendo nos anos oitenta, Gibson escapou de fixar seu futuro em modelos machistas como o de escritores cuja obra pertence aos anos cinquenta, como é o caso de Philip K. Dick, que é genial, mas me dá nos nervos com sua percepção babyboomer de como seria a sociedade em cinquenta ou sessenta anos. Gibson não previu as massivas conexões sem fio, mas seu apego ao telefone, como meio de conexão, gera imagens muito poéticas.

Boa parte dos conceitos de Matrix, dos irmãos Wachovski, veio da trilogia do Sprawl. O próprio conceito de Matrix como espaço de realidade virtual, inclusive. E os telefones analógicos, eternizados nas cenas de conexão do cultuado filme. Há inteligências artificiais, mas a pegada é diferente. Há ricaços vivendo uma vida quase eterna em tanques de memória, ricaços que clonam cópias de seus filhos, que mantêm em câmaras criogênicas para uso futuro, há biochips que são portas de acesso para deuses vodu que circulam pelo espaço em desenvolvimento da Matrix. Há embusteiros, mercenários, velhos escroques, atrizes de simstim, uma experiência sensorial em que os sentidos todos do ator ou atriz são comunicados ao usuário, implantes biônicos. E há mulheres.

Gibson criou diversos personagens femininos, fortes e presentes. Na verdade, é uma questão de equilíbrio entre homens e mulheres, e interações poderosas. Situações limite são resolvidas em rápidos lances, demonstrando que a velocidade da vida ainda irá aumentar muito. Cada personagem tem uma improvável importância em um mundo onde tudo gira rapidamente. Há cacoetes do velho mundo por todos os lados, e estilhaços de uma era esquecida, de várias eras esquecidas. As lendas, em vez de sumir, estão ainda mais presentes. Os rastafari num cargueiro que leva Case ao spa orbital dos Tessier-Ashpool, por exemplo, ou os magníficos cultores dos vodu imersos em um universo de bits e neon.

A trilogia do Sprawl é um produto dos anos oitenta, produzido com doses cavalares de adrenalina e anfetamina. Gibson, entretanto, teve as manhas de eternizar um futuro improvável a partir desses elementos, alcançando um dos possíveis sucessos na literatura: ser atemporal.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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