A Arte de Xingar

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O ex-presidente Collor nos brindou nesta semana com uma demonstração de pouca civilidade e nulo respeito pelo decoro que deveria seguir um representante do povo brasileiro. Como quase tudo que emana do político alagoano, é chorume, e não deveis desanimar: chorume pode dar origem a solos fertilíssimos, assim como o caso de Collor pode ser o início de uma didática visita ao mundo da misoginia disfarçada de patrimônio cultural.

Collor chamou o seu interrogador, o procurador-geral da república, de “filho-da-puta”. Assim, no seco. Vamos destrinchar a questão. Primeiro, nosso grande, haha, caçador de marajás, caso desejasse caracterizar seu sentimento por Janot, poderia chamá-lo de “maldito”, ou mesmo de “abelhudo”, caso lhe empolgasse a citação do famoso seriado Scooby-Doo, cujos vilões adoravam este bordão.

“Filho-da-puta” é simplesmente um xingamento irracional, uma exclamação que muitos poderão considerar uma representação pura da verve brasileira. De minha experiência, penso que apenas os espanhóis têm xingamentos melhores do que os brasileiros. Franceses xingam de um jeito travado, propenso a câimbras mandibulares, e tenho dificuldade de reconhecer um palavrão em meio a um idioma ríspido como o alemão. Não, xingar é com os latinos mesmo.

Quer saber de que outra coisa latinos entendem? De machismo. O que explica o termo escolhido por nosso príncipe de um cavalo branco tupiniquim. Collor xinga Janot indiretamente, não lhe apetece o confronto direto; ele prefere atirar pelos flancos, de preferência atingindo alguém fora da irmandade masculina que domina o congresso e o senado. Collor ataca num ponto fraco de Janot, numa mulher; ele dispara uma diatribe furibunda contra a mãe de Janot.

A história tem sido contada pelo mais forte, e o mais forte sempre é um homem, antes de etnias, classes ou qualquer outra coisa. O exercício da baixaria coxinha das últimas micaretas conservadoras é facilitada pelo fato de que temos uma mulher como presidente. Antes dava mais trabalho, apesar do apelo fácil que a falta de um dedo inspira. Não, Lula não seria xingado de puto ou vagabundo; mulheres são putas e vagabundas, homens são, no máximo, libertinos.

Crescer é um exercício fascinante. Um dos vieses pelo qual venho buscando melhorar é o das minhas expressões ao xingar. Por exemplo, tenho evitar usar a palavra “viado” ou “viadinho”. Este é um termo chulo para se referir a um homossexual, e volta e meia surge em frases coloquiais como “aquele viadinho vai ver só” ou “aquele viado passou dos limites”. Antes de se referir a comportamento sexual do indivíduo alvo do xingamento, está se expressando uma filosofia pessoal de que ser homossexual é ruim, e portanto se pode xingar alguém de “viado” em qualquer contexto.

Vale a pena reparar no seu cotidiano, nas palavras que se usa para classificar as pessoas, verificando se sua expressão não está corneteando seu baú pessoal de preconceitos e percepções limitadas do que seja “certo” ou “errado”. Seu humorista predileto, repare, ele faz graça de verdade, ou se limita a humilhar pessoas que estão fora dos padrões dominantes de beleza ou de classe social? Seu humorista predileto se esbalda em falar de “bichas, gordas, velhas, favelados”? Pensa se tu queres realmente ser associado a este tipo de pensamento “politicamente incorreto”. Pensa se o mundo não mereceria ser um pouco menos agressivo e preconceituoso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para A Arte de Xingar

  1. Cristiano Bühler disse:

    Texto Muito Bom, Gilvas!!

    Enviado do Yahoo Mail no Android

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