O Zen e a Arte de Passar Roupa

ironing

Há quem não goste de passar roupa. Há quem passe roupa de modo a ter peças alinhadas para vestir. Há quem passe as roupas pouco antes de usá-las. Há, sim, pessoas que não entendem a verdadeira natureza que reside no ato de alisar roupas com ferro quente.

Antes que me tomem por romântico, defendo-me de tal acusação. A mim não apetecem os ferros de passar antigos, recheados de um lúdico carvão de um braseiro intenso, assim como não me interessam ferros modernos que prometam vapores, eliminação de odores, ou mesmo os íons que se prometem às mulheres incautas em chapas aquecidas duplas que, bem, alisam pelo aquecimento. Não, basta-me um ferro de passar simples, de design simplesmente ergonômico, e uma mesa que tenha a mesma paciência que o bom passador de roupa. Ou seria um engomador? Não, já disse que não vivo de passado.

Passar roupa é algo que se faz sem pensar na roupa que estará pronta depois do esforço. Aliás, não deve ser um esforço. Deve ser uma suspensão do tempo, como uma nota do piano de Nils Frahm que insiste em soar em meio aos sons ambientais de Less, do seu álbum Felt. De que ainda falarei. O ferro de passar se insinua entre os botões, segue as linhas das dobras, revitaliza ângulos agudíssimos, levanta em forma de vapor aquela umidade última que se agarra ao tecido com tenacidade invulgar.

Os movimentos podem ser lentos, mas nada impede que sejam rápidos e concisos, desde que não haja pressa. Passar uma camisa antes de uma festa, de olho no relógio? Horror, horror. Como suspender o tempo se é o indivíduo, neste caso, que está com uma lâmina suspensa sobre sua cabeça? Num contínuo de giros, inversões, esticadas, busca-se a melhor abordagem ao pano que se dispõe diante de nós. Muitas decisões devem ser tomadas, e como tomá-las se não temos a mente leve e as mãos ágeis?

Respirar, este é um dos segredos. Há um ritmo entre invadir o tecido e retirar-se. Focar as tramas para em seguida difundir o foco, perder-se nas formas maiores, na geometria regular que haverá de, em algum momento, cobrir de forma funcional e agradável seu próprio corpo ou de alguém que se ama. Porque passar a própria roupa é descobrir-se, encontrar o extremo de si mesmo antes e depois das dobras. Antes pela forma legada pelo corpo às roupas, e depois pela forma imposta por aquele que pilota o ferro de passar. Neste ponto, ele pode se perguntar se é ele quem define as formas, como um tirano, ou se é apenas um ser senciente que segue as indicações de dobras que um costureiro anônimo executou com base nas orientações de um estilista que nunca conhecerá nenhum dos dois artífices de uma obra que, enfim, não é de nenhum dos três.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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