O Presente Desapego

comfortzone

Eu sempre tive uma relação ambígua com presentes recebidos. Recebi muitos presentes que me encantaram, e ainda hoje me encantam, por sua presença, caso de presentes duráveis, ou por sua lembrança, caso de presentes consumíveis. Geralmente prefiro os do último caso; gosto de, ganhar ou receber, presentes voláteis, que, uma vez (consum)idos, passam a residir em nichos carinhosos nos recônditos das memórias queridas.

Você pode entretanto, me dar presentes duráveis; há portas que não eu não fecharia. Até porque são os presentes duráveis os que me causam eventuais desconfortos e, portanto, oportunidade de acessar minhas emoções contraditórias, potencializando meu crescimento pessoal. Este tópico é me levou a escrever hoje, e tudo veio de um trecho de conversa, quase, trivial.

Ouvi falar de um escritor japonês e de seu livro sobre organização do lar. O livro contém, entre outros tópicos e segundo o relato, dicas de como liberar espaço colocando objetos que não precisamos mais reter. Este assunto me tocou; tenho sérios problemas, acessos de culpa mesmo, em me desfazer de certos objetos, tenham sido comprados por mim ou tenham sido a mim presenteados.

Eis que chega este japonês e me escreve em seu livro que o presente não precisa ser retido. O objeto presenteado, diz o nipônico, cumpre sua função no momento em que o presenteador o entrega para o presenteado. O presenteador dispõe de tempo e dinheiro, e de sua sensibilidade, para buscar e adquirir o objeto, através do qual demonstra seu carinho e sua estima pelo presenteado. O presenteador pode estar equivocado quanto ao gosto do presenteado, mas isto testemunha antes alguma falha de interpretação do que uma falta de consideração pelo presenteado.

No momento em que o objeto passa das mãos do presenteador para as do presenteado, cessa qualquer poder que o primeiro tenha sobre o objeto. Este é o sentido de “dar” um presente; o objeto desconecta-se da realidade do presenteador para habitar, em sua completude, o universo do presenteado. Esta é uma lição muito séria e dolorosa sobre o desapego.

São comuns os casos de presenteadores que anseiam por definir o que um presenteado deve fazer com o presente que acabou de ganhar. Entendo que o presenteador possa contar, para o presenteado que, comprou um dado quadro, digamos, porque este ficaria perfeito em um certo local da sala do presenteado. É algo natural, faz parte do ritual de vínculo entre essas duas pessoas. A coisa degringola quando o presenteador insiste que o tal quadro seja colocado na parede onde desejou que fosse colocado, ou mesmo em qualquer lugar da casa do presenteado. O quadro deixa de estar no âmbito do controle do presenteador, e passa, integralmente, a ter seu destino regrado pela vontade do presenteado.

Neste ponto meus pensamentos acrescentaram outro viés a esta ideia que estive fermentando em minha mente, e falo da necessidade doentia que observo em mim e em outras pessoas. Ao dar um presente, posso resvalar para a armadilha de usar o presente como uma forma de controlar um pedacinho, maior ou menor, da vida do presenteado. Muitas vezes eu acredito que se trate de um comportamento inconsciente, mas, meus leitores sabem, tenho uma tendência a ser polianesco.

Estes são conceitos que terei de exercitar. Ainda tenho presentes em gavetas e em caixas, objetos que não se encaixaram em minha vida ou mesmo que não me agradaram esteticamente. Eles ficarão em seus esconderijos mais algum tempo até que eu possa decifrar-me e decidir o que fazer com eles. Neste momento, minha vida terá menos badulaques e cacarecos, e pressinto que será uma vida mais leve, livre de algumas culpas pesadas e bobas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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