Haruki Murakami: Caçando Carneiros

Capa_Cacando carneiros.indd

Murakami apareceu aqui em minha vida de surpresa, sem referências prévias ou indicações. Numa compra de livros pela internet calhou de ele estar junto com outros volumes interessantes e me atrair pela bela capa. Sim, livros com capas bonitas têm mais chance e este é um mundo cruel onde se come com os olhos também.

Comecei a caçar carneiros logo depois de um volume chato autobiográfico de Jack London, o que pode ter baixado as expectativas, mas não, Murakami é realmente um escritor especial. A forma como ele semeia mitologias ao longo de seu elegante texto é uma prova contundente de sua capacidade como romancista. Seus personagens me conquistaram, mesmo os mais desagradáveis ou inviavelmente excêntricos.

A narrativa poderia ser uma típica descrição de um tedioso mito heroico, mas Murakami não se mostra dado a simplificações. Dos arabescos delicados dos primeiros capítulos, ferramenta utilizada para introduzir poeticamente cada personagem desta fase inicial, ele passa a colocar a trama maior em primeiro plano. Neste movimento, os novos personagens se apresentam relativizados aos primeiros. Os movimentos ganham peso enfim, texturas épicas, tinturas sólidas, evoluindo o final grandioso da sinfonia.

O Japão apresentado não deixa de ser nipônico, mas também não se encanta pelas facilidades das descrições folclóricas acessíveis. As cidades são peculiares, a geografia e os costumes são descritos dentro da necessidade da trama. Classificar o romance é que me parece complicado demais. Acho que eu o comprei como ficção científica, mas há uma queda maior por algo que eu chamaria de fantasia sobrenatural. É curioso, inclusive, que o final da história seja aclimatada num cenário típico de filme de horror, e que Murakami simplesmente se abstenha de aplicar mais do que um único susto.

Ao fenecer da última palavra na última página, fiquei querendo mais. Murakami, maldito seja, deixa pontas soltas no melhor estilo que Gaiman aplicaria tempos depois. É a última lição que o escritor me deixou sobre escrever: deixar a história fluir por si, não explicar tudo, deixar que algo escape para fora da moldura, e que o leitor imagine por si o que não ficou claro no texto. Belíssimo.

Um trecho da página 156:
(…)
Nós nos abraçamos no sofá. Quando aproximei o rosto do forro do móvel comprado numa loja de objetos usados, senti o cheiro de uma época antiga. Seu corpo macio combinava com o cheiro. Suave, aconchegante, como velhas e vagas recordações. Com os dedos, afastei cuidadosamente os seus cabelos e beijei-lhe a orelha. O mundo estremeceu de leve. Um mundo pequeno, bem pequeno. Nele, o tempo corria como uma suave brisa.
(…)

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s