Allain de Botton: Ensaios de Amor

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É bem provável que o filme mais bonito sobre o amor tenha sido, previsivelmente, intitulado Amour. Michael Haneke teve a capacidade de criar  uma obra irretocável que, oh infâmia, toca fundo o espectador. O amor filmado por Haneke evoca altitudes elevadas e abstrações românticas representadas, gloriosamente, no cotidiano de um casal magnificamente interpretado por Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Este amor, que atravessa a crueza dolorosa da doença e das dúvidas da idade avançada, é do tipo sobrenatural, que se presta às obras dedicadas à beleza. Não é deste amor atemporal que estou falando hoje.

A aproximação mais adequada, deste texto neste dia e de nossa época, é representada por uma obra como Amor em Cinco Tempos, de François Ozon. Esta outra película francesa é filmada, coerentemente em cinco tempos, em ordem cronológica reversa. O cacoete pode parecer uma apropriação preguiçosa de outro filme apresentado “ao contrário”, o festejado Memento de Christopher Nolan; seria um equívoco: a inversão da cronologia serve, na película de Ozon, para ilustrar a confusão entre o início de um relacionamento e o fim de outro. Os relacionamentos atuais, que duram de alguns meses a alguns anos, são ilustrados em seus altos e baixos por Amor em Cinco Tempos e também por Ensaios de Amor, primeiro livro do filósofo suíço Allan de Botton.

O livro de Botton se aproxima da película de Ozon pela velocidade em que tudo ocorre, e também por um distanciamento que se toma das personagens envolvidas. Explico. O narrador de Ensaios de Amor percorre poucas páginas antes de estar apaixonado por Chloe, e os eventos nos enchem as veias deste júbilo das realizações românticas explosivas típicas dos primeiros tempos de um amor. Em pouco mais de duzentas páginas o ciclo completo é realizado, como se o leitor estivesse em uma montanha russa. Ou em um relacionamento afetivo intenso.

Há tempo para que a intimidade se instaure enquanto Botton nos alimenta com reflexões profundas e citações charmosas. Curiosamente, ele consegue imprimir leveza sem ser banal ou bobo, instiga sem exigir que nos debrucemos repetidamente sobre uma mesma frase críptica de algum filósofo seminal. Da mesma forma, Botton não teme inserir excertos de textos popularescos de sala de espera de dentista, sempre relevante e contundente.

A paixão destes amantes quaisquer me fez emitir risos de júbilo e identificação em mais de uma viagem de ônibus. Seus dias cinzas ou negros me aterraram com a percepção de que, como canta Duncan Sheik, the darkness comes and the darkness goes, somos, possivelmente, os peixes dourados da lenda urbana que os reputa como portadores de memórias de duração curtíssima.

A habilidade de Botton consiste, aqui, em tornar os personagens dispensáveis. Eu não me identifico com Chloe, com Will Knot ou com o narrador, são as situações que me capturam em sua representação do que eu já senti e/ou ainda vou sentir antes de, como se diz no interior, sossegar o facho. Botton propõe uma leitura bem fundamentada e elegante de um caso de amor, caminhando à distância segura dos manuais de autoajuda. Não há soluções prontas para o consumo, mas ilustrações tocantes de como o processo do amor é, enfim, tão parecido para todos nós quanto é pessoal e intransferível. Paradoxos, sei, e todo ser que já amou entende como funciona. Há um trecho, inclusive, que trabalha a questão essencial de como dar nome a um sentimento que, enfim, é tão único do casal e, ao mesmo tempo, ocorre para quase todos e é cantado em todas as rádios ao acompanhamento de melodias açucaradas.

Segue um trecho da página 156:
(…)
Ainda nevava quando acordamos na manhã seguinte, mas estava quente demais para a neve se acumular, de modo que as calçadas se encheram de lama marrom debaixo de um céu de nuvens cinzas. Nós havíamos decidido visitar o Museé d’Orsay depois do café, e planejado ir a um cinema à tarde. Eu havia acabado de fechar a porta do hotel quando Chloe me perguntou bruscamente:
– Você está com a chave?
– Não – respondi – há um minuto você disse que estava com ela.
– Eu disse? Não, não disse – disse Chloe. – Não estou com a chave. Você acabou de nos trancar ao lado de fora.
(…)

Qualquer coincidência é simples realidade.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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