Joseph Heller: Alguma Coisa Aconteceu

HellerAlguma

Bob Slocum é o avatar de uma sombria crítica social neste segundo romance de Joseph Heller. Slocum vive preso a uma órbita estreita em torno de sua família disfuncional, colegas de trabalho com quem disputa violentamente inglórias posições, amantes que ele não ama e os dilemas não resolvidos que acumula desde a tenra infância.

Pais de dois filhos, Slocum gostaria de esquecer o terceiro, que sofre de deficiência mental. Slocum quer o divórcio e declara que já pensava em divórcio antes mesmo de se casar. Ele não consegue, obviamente, declarar o amor, que não sabe se sente, por sua esposa. Sua capacidade para o amor pode ter se perdido com Virginia, colega de trabalho durante o final de sua adolescência, por quem segue alimentando delírios de desejo excitado mas nunca executado. Ele faz sexo em quantidades acima da média, sexo suficiente para competir com outros protagonistas de escritores judeus como os que Philip Roth descreve em O Professor de Desejo e Complexo de Portnoy, mas não sente vínculo com suas amantes ou sua esposa. E nem mesmo a mais breve sombre de satisfação. Se envolve em discussões pueris e destrutivas com sua esposa e/ou com sua filha adolescente ao mesmo tempo que se projeta em seu filho tímido. Teme estar se tornando alguém que possa ter vontade de experiências homossexuais. É republicano, mas volta escondido em alguns democratas.

No trabalho, um pouco mais do que em casa, Slocum sente medo e está pronto a rastejar e se humilhar para conseguir suas duvidosas vitórias. Joga o jogo corporativo com habilidade, principalmente porque sempre melhor na empresa do que em casa. Suas vitórias têm gosto de nada e o que Slocum realmente tem como objetivo é o discurso de final de ano na convenção da empresa; são três minutos em torno dos quais orbitam quase todos os potenciais de satisfação em sua vida.

Eu esperava de Heller uma narrativa metalinguística como a de Retrato do Artista enquanto Velho, ou mesmo os delírios quase biográficos de Imaginem Que, mas o que encontrei foi uma estrutura narrativa obsessiva e fragmentária, como se uma grande torrente de confissões fosse interrompida frequentemente por delírios e rompantes nostálgicos amargos. Slocum não se poupa em suas palavras, ainda que não haja horizonte para redenção aqui. Slocum conta certas passagens mais de uma vez, como se rodeasse ansiosamente uma carcaça em qual não tem a plena certeza de ter esgotado os mínimos nacos de carne. O tempo decorrido nas ações, se descontarmos as histórias do passado, se resume a um prazo de alguns meses. As reminiscências invadem as páginas em ondas sobrepostas sustentando um ritmo constante, algo maçante, até que a ação em si ocorre de forma fugaz.

Depois do que já imaginávamos que iria acontecer, Slocum segue, alcança seu novo posto, faz o que precisa ser feito. A tragédia o saúda e ele segue. Imune, acumulando ressentimentos e outros resíduos daninhos, amargando a si à vida de sua família, um perfeito vencedor do sonho americano.

Segue um trecho da página 156:
(…)
Com a voz cada vez mais estridente, minha esposa repete:
– Diga-me, o que devo fazer?
– Vocês duas me enchem o saco!
Minha voz é enfática e lanço um olhar de advertência para minha filha, a fim de que ela saiba que a estou incluindo também em minha ira e para evitar o brilho astucioso que surge de hábito em seus olhos sempre que trato minha esposa injuriosamente.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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