Poul Anderson: Orion Renascerá

OrionAnderson

Eu dificilmente teria me interessado por este livro se não fosse uma canção do projeto italiano Syrian, de música eletrônica. As letras deles são fortemente influenciadas por ficção científica, mais especificamente de viagens espaciais, algo que também me fascina. A canção se chama Orion Shall Rise e é homônima do livro de Poul Anderson.

Compro livros pela capa, confesso. A capa da edição de 1992 pela Editora Francisco Alves é horrenda. As fontes são datadas, a diagramação é pouco atraente e a ilustração do casal na capa é algo que consigo descrever apenas como pavoroso. Felizmente a indicação prévia me permitiu ter a paciência de adentrar as páginas desta maravilha de cinco reais adquirida no prolífico sebo Relíquia. Este é apenas um de diversos exemplares que seguem lá mofando.

Estou dado a confissões hoje. Uma delas é que eu nunca fiz a menor ideia de quem fosse Poul Anderson até colocar meus olhos sobre este livro. Hoje sei, pela orelha do livro, que ele é um escritor respeitado e premiado no meio da ficção científica. Este romance deixa claro o porquê de tal deferência.

A Terra vive uma era muito distante depois de uma deflagração nuclear mundial. A distopia inicial se dissipou e um novo equilíbrio, tenso, se estabeleceu. Os maurais são a nação dominante, vencedora de mais de uma guerra, a reter os ânimos tecnocratas e impedir a ascensão da idolatria pela energia nuclear. Os aerogenes comandam a antiga Europa através de Skyholm, uma fortaleza voadora, a única que sobreviveu às monstruosas guerras de outrora. Os nórdicos se organizam em Lojas esparsas que se denominam Povos Livres e buscam, em segredo, materiais físseis que tenham sobrado das guerras nucleares para erigir seu misterioso, e grandioso, projeto. Há outros jogadores em campo, como os mongs. Há também uma linha de pensamento a conquistar adeptos a taxa alucinante, o geianismo, espécie de culto à Mãe-Terra.

Este é o cenário complexo em qual Anderson semeia seus personagens. O ponto forte da trama consiste nas motivações corretas e plausíveis de todos os jogadores. O maniqueísmo passa longe das intenções, não existe motivação simplista, todos se vestem de suas razões corretas de seu próprio ponto de vista. Há sociopatas, sem dúvida, há homens fracos, há homens fortes, assim como há quem seja forte e quem seja fraco entre as mulheres na trama.

A Terra sobrevive em meio a muitas restrições, algumas fantasiosas, outras plenamente verossímeis. Anderson se dá o luxo de deixar a coerência científica de lado quando a narrativa lhe pede que seja convincente. Da mesma forma são cortados detalhes técnicos que possam fazer o andamento desandar. Ainda assim, chovem ideias fantásticas e conflagrações épicas, batalhas devastadoras e amores maiores que a vida. Extremos há na vida de todos: enquanto alguns usam cavalos para se movimentar em várias regiões, há jatos velozes que carregam pilotos domadores de tempestades. De um lado há costumes quase medievais em uma Terra de baixa coesão e por outro há feixes de laser que evaporam cidades a partir da energia solar que jorra na estratosfera.

Anderson demonstra domínio exemplar da arte narrativa e nos premia com premonições de tantas guerras que vi passar nos últimos vinte e cinco anos assim como com o vislumbre de uma era em que os humanos finalmente se lançarão ao espaço sideral que é seu lar último.

Um trecho da página 156:

(…)
Wairoa desfiou uma série de frases, inicialmente em angley e depois em francey. Tanto quanto podia perceber, Terai, que tinha bom ouvido, achou que ele falava impecavelmente bem.
– O mesmo acontece com a sociologia – continuou Wairoa – Uma vez que pegue o sentido do tópico, por que ouvir uma aula arrastar-se interminavelmente? O senhor deve ter notado que tomei emprestadas notas de meus colegas de classe, estudei-as utilizando leitura dinâmica e fiz perguntas específicas. Lógica e lógica inconsciente, denominada intuição, me preenchem os claros suficientemente bem. – Deu de ombros – Afinal de contas, ninguém espera que um monstrengo siga as nuanças do convívio social. Farei melhor adquirindo mais fatos sólidos. Espero que, nesse particular, possa me ajudar, capitão. Sou tristemente ignorante sobre a União do Noroeste. Meu trabalho tem sido feito em países muito distantes desta região.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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