Dona Bilica: Naquele Tempo

donabilicaverão

Sábado de tempo estranho, turistas em polvorosa pensando em recolher as coisas e seguir para casa no domingo de manhã, sento em uma cadeira do charmoso circo da Dona Bilica, inaugurado há um bom tempo no Morro das Pedras, no sul da Ilha. O espetáculo é Naquele Tempo, estrelado por Vanderléia Will e dirigido por Renato Turnes. Vanderléia empresta sua habilidade para compor a personagem com que trabalha há mais de dez anos. Uma pesquisa intensa com os antigos nativos, que viveram a Desterro de tempos bem diferentes, embasa a peça, tornando sua substância algo muito invulgar.

O espetáculo emula uma conversa com o espectador, como se este chegasse de supetão na casa de uma Dona Bilica prestes a sair para algum compromisso. A partir desta pretensa visita, as histórias fluem. O humor é a linha-mestra e Vanderléia domina o tempo para as piadas assim como à plateia empolgada com os causos. Por baixo da graça se estende uma robusta estrutura narrativa que resgata a identidade dos nativos da Ilha de Santa Catarina e da região, os manezinhos. Os costumes são conectados organicamente às falas. A cada fanfarronice inocente de Bilica é apresentada uma técnica, seja de renda de bilros, seja de farinha de mandioca. Bilica conta como as pessoas se conheciam, como se separavam, como se transformavam em bruxas. Ela fala de tempos duros, de muito trabalho, de crendices populares, de uma forma diferente de dispor uma comunidade.

O rico vocabulário revelado nas conversas se mistura a cantigas colhidas diretamente das mantenedoras da tradição oral dos manezinhos. Às risadas se intercalam momentos tristes, onde cabe a reflexão, embora haja espectador que não perceba quando o tom muda de humor negro para drama. O espetáculo é essencial para que se entenda, de uma forma simples e direta, um pouco da herança cultural do povo que já estava aqui quando as hordas de haoles chegaram com seus prédios e seus carros. Ele também funciona como uma ferramenta para retomar a autoestima dos jovens manezinhos e de outros nem tão novos, para que se orgulhem de suas origens e entendam de onde vêm.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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