Richard Dawkins: A Grande História da Evolução

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Eu levei um bom tempo para terminar de ler este livro. Conforme os concestrais chegavam e ficavam para trás, eu me entregava a exercícios mirabolantes sobre abordagens que eu faria a partir do trecho que estava lendo, evoluindo graciosamente para o todo que aos poucos se descortinava. A proposta de Dawkins aqui é grandiosa: seguir, partindo de nós, macacos glabros, seguir uma trilha de concestrais em encontros com grupos de peregrinos agrupados conforme as mais atualizadas teorias e descobertas da ciência. Atravessamos milhões de anos, encontrando criaturas curiosas e descobrindo como os pesquisadores colocam e retiram rótulos em criaturas que ilustram, ainda que amostralmente, a diversidade maravilhosa da vida na Terra. Eu encenei dezenas de vezes um rabisco para esta resenha, mas sempre me intimidava não ter chegado ao fim do livro, ao fecho desta história que poderia, como se fosse uma ficção de Borges, ser contada por milhares de outros peregrinos, a partir de sua particular percepção. Eu fiquei intimidado. Mesmo. Tanto que passo de volta a palavra a Dawkins em seu quase epílogo:

(…) Se, como o albergueiro que retorna, eu refletir sobre toda a peregrinação da qual penhoradamente fiz parte, minha reação é de um assombro arrebatador. Assombro não só com a prodigalidade de detalhes que vimos, mas também com o próprio fato de existirem tantos detalhes em um planeta. O universo poderia facilmente ter permanecido sem vida e simples – apenas física e química, apenas o pó disperso da explosão cósmica que originou o tempo e o espaço. O fato de isso não ter ocorrido –  o fato de a vida ter evoluído a partir de quase nada, cerca de 10 bilhões de anos depois de o universo ter evoluído a partir de quase nada – é tão espantoso que eu seria louco se tentasse lhe fazer justiça pondo-o em palavras. E nem mesmo isso é o fim da questão. Não só a evolução aconteceu, mas acabou conduzindo a seres capazes de compreender o processo, e até de compreender o processo pelo qual o compreendem.

Essa peregrinação foi uma viagem, não só no sentido literal, mas no sentido da contracultura que conheci quando jovem na California dos anos 1960. O mais potente alucinógeno à venda em Haight, Ashbury ou Telegraph Avenue seria fichinha em comparação com ela. Se é deslumbramento que você quer, o mundo real tem o máximo. Pense no cinto-de-vênus, nas águas-vivas migratórias e nos minúsculos arpões; pense no radar do ornitorrinco e no peixe elétrico, na larva da mutuca com aparente antevisão para prevenir-se contra rachaduras na lama; pense na sequoia, pense no pavão, na estrela-do-mar com sua força hidráulica encanada; pense nos ciclídeos do lago Vitória, evoluindo não sabemos quantas ordens de magnitude mais rápido do que os Lingula, Limulus ou Latimeria. Não é orgulho por meu livro, mas reverência pela própria vida que me encoraja a dizer, se alguém quiser uma justificativa para tamanha exaltação: abra-o em qualquer página, aleatoriamente. E reflita sobre o fato de que, embora este livro tenha sido escrito do ponto de vista de um ser humano, outro poderia ter sido escrito paralelamente por qualquer dos 10 milhões de peregrinos que partiram. Não só a vida neste planeta é deslumbrante, e profundamente satisfatória, para todos aqueles cujos sentidos não foram embotados pela familiaridade, mas o próprio fato de que evoluiu em nós a capacidade cerebral para compreender nossa gênese evolutiva redobra o deslumbramento e intensifica a satisfação.

“Peregrinação” implica devoção e reverência. Não tive a oportunidade de mencionar aqui minha impaciência com a devoção tradicional e meu desdém pela reverência quando o objeto é qualquer coisa sobrenatural. Mas não faço segredo delas. Não porque eu deseje limitar ou circunscrever a reverência, não porque eu queira reduzir ou depreciar a verdadeira reverência com que somos impelidos a celebrar o universo, assim que o compreendemos adequadamente. “Ao contrário” seria dizer pouco. Minha objeção a crenças sobrenaturais é justamente porque não fazem de forma alguma justiça à sublime grandiosidade do mundo real. Elas representam um estreitamento da realidade, um empobrecimento de tudo o que o mundo real tem a oferecer.(…)

Este trecho, relativamente longo, sintetiza o sentimento que perpassa o este livro. Encanto. Em todas as páginas, mesmo as mais difíceis. Dawkins é um professor de mão cheia, nos conduz firme e carinhosamente por caminhos que também encantam a ele, mesmo que tenha passado por alguns trechos tantas vezes que o chão chega a estar compactado. Dawkins nos ensina sobre plantas e animais e fungos e sobre datação atômica, sobre geologia e de quebra nos ensina a amar este planeta lindo. Se algum supremacista ou outro tipo de racista se desse ao trabalho de ler estas páginas, terminaria por desistir de sua intolerância; Dawkins quebra paredes, demole preconceitos com a arma mais poderosa nesta função: conhecimento.

Pessoa fala sobre a necessidade de, assim como ver novas paisagens, ver as antigas paisagens com novos olhos. Dawkins tem o poder de educar nossos olhos para enxergar a realidade riquíssima que deixamos, embotados, de ver. Ele rasga telas e panos e cortinas e paredes de séculos de visões preconceituosas e limitadas, injeta ar limpo em nossa mente. Eu desejo imensamente que você abra também este livro e (re)descubra, como eu, as delícias de saber, da ciência que ilumina as trevas do obscurantismo e do preconceito.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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