Sobre o privilégio

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“Privilégio” é  uma palavra que me agride. Não por seu aspecto estrutural ou seu papel na gramática da língua portuguesa, mas pelo significado que ela encerra. Em suma, não se trata de uma antipatia pessoal, mas de asco pelo que as pessoas veem nela.

Privilégio significa que uma determinada pessoa tem acesso a algo a que outras não têm. O objeto do privilégio está associado à escassez, natural ou artificial, de um determinado item. Este resultado pode ser alcançado aumentando o preço de compra ou por meio de série limitadas oferecidas de forma restrita ou por tempo limitado. Há algo inominavelmente escroto chamado “informação privilegiada”, que consiste na base para yuppies ganharem milhões na bolsa ou políticos embolsarem propinas por conta de seu poder e que penso não necessitar de esclarecimentos.

Há quem considere que o privilégio vem naturalmente depois que uma pessoa trilha um caminho cheio de marcos meritocráticos. Esta visão é típica de pessoas que tiveram oportunidades melhores do que outras; os primeiros tendem a considerar os últimos “vagabundos” e a arrotar a superioridade do self-made man. Este tipo de falácia perpassa o imaginário da classe média que sofre (sic) e que veste camiseta da seleção para protestar contra algo nebuloso que eles convencionaram chamar de “corrupção”.

A falta de uma educação ampla e multifacetada está na base da necessidade de privilégios para se diferenciar do restante do mundo. Qualquer pessoa quer se sentir especial e diferenciada do restante da manada, furtar-se ao fato de que somos uma espécie, homo sapiens, que, como qualquer outra está presa ao processo, falsamente trivial, de nascer, crescer, procriar, envelhecer e morrer. Esta aparente banalidade não é aceita pelo grosso da humanidade. Criamos deuses, congregações, clubes, times de futebol, bandas indie iugoslavas, dietas, qualquer coisa que nos faça experimentar o sentimento da exclusividade.

Curiosamente, cada um de nós é único sem perceber. Nosso íntimo está repleto de emoções e sentimentos que não podem ser replicados. Este mundo interior é riquíssimo, farto de alegrias e tristezas intensas e esparsas. Cada um de nós tem gostos, predileções, ascos, fobias e inclinações que nos fazem especialmente distintos dos outros, mas nossa escolha, quase sempre, é a de evitarmos olhar para dentro de nós. Em lugar disto, buscamos a realização fora de nós mesmos. Ao desprezar o próprio centro, o indivíduo se torna uma massa amorfa a vagar ao sabor das vontades e caprichos dos outros, o que se configura em uma rota acelerada em direção ao sofrimento.

Numa sociedade em que se olha para fora para descobrir do que se gosta fatalmente chega-se ao ponto em que todo mundo gosta da mesmas coisas, anulando assim o efeito diferenciador proposto inicialmente. Para resolver este impasse a sociedade de consumo nos trouxe este elixir magnífico chamado privilégio. Como funciona? Criando objetos de desejo comum a todas as pessoas engajadas no consumo, assim como formas de que o acesso a estes objetos seja limitado por escassez ou outras estratégias.

O resultado desta abordagem pode ser visto em anúncios em revistas ou jornais ou grandes outdoors ao lado de avenidas. Todas as vezes em que um anúncio trouxer a palavra “privilégio”, esteja certo de que uma injustiça está presente. É um termo dourado e cintilante para nomear uma faceta específica do abismo que separa as classes em nossa sociedade. Recapitulando: Se você encontrar a palavra “privilégio” em algum anúncio, leia com mais atenção, tendo a certeza de que vai encontrar alguém sendo sacaneado.

Vale retornar ao conceito de escassez. Meu professor de economia na universidade batia muito na tecla de que a escassez é a base da matéria que ele lecionava. A escassez é a base de nossa economia, isto é verdade, mas ela realmente precisaria ser? Há quem diga que não. A escassez, desconfio, pode ser produzida ou inventada; seria perfeito para a manutenção do status quo. E é. A escassez de recursos é profundamente antidemocrática. O acesso livre a recursos destrói a base de poder de atravessadores como políticos e outros tipos de falsos ídolos. Se existir uma nova geração de políticos, efetivamente adequada à sociedade democrática, ela será preenchida de indivíduos que se colocam como supérfluos e substituíveis, totalmente diferentes da canalha atual que se coloca como a única ponte entre o povo e o estado que deveria servir a este mesmo povo.

O momento é especialmente rico em exemplos para esta teoria. As crises se agravam quando os recursos são represados pela elite amedrontada, travando a economia. Para a elite, detentora dos capitais, represar é simples, pois ela opera com folga. Como de praxe, na guerra dos elefantes quem sofre é o capim, e as populações desprivilegiadas é que passam fome e outras privações. Fala-se de fome, mas se esquece de quanta comida é desperdiçada todo dia e das poucas pessoas que têm o privilégio de comer acepipes, duvidosos em seu sabor e cruéis em sua origem, como o foie gras.

Palavras podem não machucar, talvez, mas creio que um dos sintomas, de que uma era áurea da humanidade chegou, seria a aposentadoria da palavra “privilégio”.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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