As gregas agruras de Juno

mitologiagrega

As leituras da idade adulta por vezes se ressentem da ausência de outras leituras, mais básicas, que eu desejaria ter efetuado nos tenros e bucólicos anos do começo de minha adolescência. É o caso das lendas da mitologia grega, que li em doses esporádicas e eventuais ao longo da vida, sem alcançar a massa crítica de uma apreciação conjunta. Corrigi esta lacuna nos últimos trinta dias lendo uma compilação de Franchini e Segranfedo, que me pareceu cobrir boa parte do que é necessário saber sobre o assunto.

O conjunto destas histórias me fez repensar meus conceitos sobre quando se deve ler mitologia grega. Descobri-me equivocado ao pensar que estas leituras sejam apropriadas à época de formação do caráter. Depois da leitura, vejo que estas narrativas demandam muito senso crítico e distanciamento, dado que efetivamente fazem jus aos anos em que foram eminentes. A sociedade grega era, segundo o que li de historiadores, relativamente sofisticada, mas as novelas da época deixam claro que eram outros tempos pelo menos no que diz respeito aos direitos da mulher.

Muitas narrativas falam da externalização de certos ardores masculinos como demonstrações de algo que chamam de “amor”, mas que hoje seriam motivo para trancafiar os perpetradores de tais peripécias em celas de segurança máxima sob pena de serem justiçados pelos outros detentos. Castor e Pólux estrelam, literalmente, uma narrativa deste tipo. Eles se “apaixonam” por duas garotas, perseguem-nas, acossam-nas e, quando da chegada dos noivos das moças, passam estes últimos no fio da espada. Ou da lança. Gregos furam pessoas com tantos objetos que chego a bocejar depois de algum tempo de leitura.

Um conjunto grande de narrativas se dedica a contar como Júpiter, o pai dos deuses e um safado pulador de cercas, inventa formas criativas para “seduzir” e obter acesso à alcova de diversas moças e ninfas e mais o que pintar pela frente. Não bastasse o velho deus ser um babaca, as histórias pintam sua esposa, Juno, como uma mulher “ciumenta e vingativa”. Como se ela não tivesse motivos para rodar a baiana quando o cafajeste do marido sai pelas trilhas acidentadas da Grécia a entreter o membro divino que tem entre as pernas.

Juno desconta sua ira justamente nas mulheres que Júpiter, o grande imbecil, seduz. Transforma uma em ursa, outra em vaca, mata os filhos de uma terceira, mete o terror geral na mulherada que, já não bastasse, é enganada e/ou forçada ao sexo com o grande pica das galáxias que se morfa em chuva de prata, touro e mais uma gama de transformações que fariam a Mística, dos X-Men, repensar suas prioridades. A única pessoa que não recebe castigo algum de Juno é Júpiter; qualquer semelhança com a realidade das mulheres oprimidas de hoje não pode ser coincidência.

As narrativas da mitologia grega falam de uma época um tanto mais grosseira do que a atual. Há asnos da novíssima direita que bateriam palmas para o que veriam como um retorno a um mundo politicamente incorreto, o que nos leva ao ponto específico que eu quis comentar aqui. Estes textos possuem um valor imenso como documentos históricos e como arte, mas não devem, na minha opinião, ser apresentados como contos de moralidade a jovens que não possuam a capacidade de discernimento necessária para dar o devido valor a mulheres e outros grupos minoritários em participação na sociedade. Se hoje as coisas estão longe do ideal, estas narrativas deixam claro que já foi bem pior e, rudes que são, devem ser apresentadas aos jovens com as devidas ressalvas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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