Ficção No. 59

pmatrioska

Se a mão dela descia sobre a sua, já não o sobressaltava como nos primórdios da mansa amizade que havia entre os dois. Ele não poderia ter certeza sobre o que a fazia repetir atos inocentes de coqueteria. Num passado profundo, diria que ela ainda tentava acender a chama de um romance que não fora escrito em nenhum fundo de estrelas e neste presente de uniformidades e vagas rusgas mais parecia que ela brincava ao aplicar um cacoete preguiçoso, um jogo inócuo de sedução previamente fadada à indiferença pelo outro.

Os encontros dos dois se davam a períodos incertos, semanas os separavam, acumulando assuntos que tornavam as conversas algo mais do que suportáveis. Ambos poderiam dizer que sentiam prazer nestas conjunções ao largo de pequenas mesas de café ou de bares de fim de tarde, mas apenas se houvessem conseguido reter a lembrança, ainda que vaga, de como era o mundo quando eles não precisavam um do outro.

Tudo poderia ter mudado quando ela, logo após um dos longos silêncios fecundos que davam substância objetiva ao relacionamento dos dois, lembrou de uma anedota de uns dias antes. Ela lhe contou que uma amiga vinha se prolongando em gestos algo lânguidos, demorando-se nos toques, normalmente fugazes, quando caminhavam pelas calçadas saindo dos encontros que quatro ou cinco ex-colegas de cursinho cismavam em manter semanalmente mesmo depois de uma década de formadas. Com o olhar neutro, donde ele não conseguiu extrair nenhuma pista de ironia, ela transcorria sobre o que sentia, uma espécie de desconforto leve por não ter a menor vontade de corresponder. Logo este assunto se dissolveu na conversa embora tenha ficado gravado na memória dele como um decalque velho e persistente.

Foi com uma ansiedade estranha que ele se aproximou dela na semana seguinte. Segurou a sua cadeira por trás enquanto ela arrumava-se para sentar na outra cadeira, demorando-se em arrumar uma posição adequada para sua bolsa, missão fracassada desde o princípio. Estacou quando deu com o outro parado em escrutínio de algo além dos movimentos da bolsa, ao que se seguiu o silêncio mais estranho que houvera entre eles. Ela quis falar em mais de um momento, mas sentia que um pêndulo maroto fazia as vezes de ponte entre eles, num movimento que a excluía da autoridade. Fazia que ia, mas recuava diante da pequenina janela de chance que se abria. Como não houvesse o que falar, colocou a mão sobre a dele e buscou os olhos dele como quem tem algo instigante para contar.

Ele esperava aquilo? Talvez. Ela começa a contar sobre a amiga, que agora deu para narrar histórias de seduções inverossímeis de que havia sido alvo. Ligações na madrugada de amigos excitados ou antigos amantes. Admoestações eróticas sussurradas por estranhos atraentes entre paredes marcantes em festas ou em vernissages. Bilhetes obscenos dobrados e enfiados na porta de seu carro, que ela abria vagarosamente saboreando um olhar oculto entre os carros ou logo atrás das primeiras árvores bem comportadas ao redor do estacionamento da universidade. Origamis mais do que criativos, provocantes, cuidadosamente inseridos entre as roupas em sua bolsa da academia. A amiga entrava em detalhes e ela não sabia se deveria confessar que, na prática, apenas tinha dúvidas sobre se estava apenas entediada ou se sentia também desconfortável.

Qual seria a razão de contar tudo aquilo para ele? Teria decidido buscar tornar normal a sedução desinteressada? Gostaria de criar um canal para apresentar a amiga a ele? Por que as aventuras da amiga nunca chegavam às vias de fato? Ou seria apenas o fato de ela nunca contar estas partes? Ou seriam apenas fantasias? Haveria uma amiga? Nesses dias ele chegou a duvidar que ela realmente vivesse uma vida. Começou a achar viável sua hipótese de que ela desaparecia de seus encontros para dentro de um apartamento onde vivia de renda com um cachorro idoso e dois gatos quietos, cercada de romances baratos e livros de arte em capa dura.

À noite ele ainda acalenta tais pensamentos em turbilhões de fantasias incompletas. Sua cabeça ainda está presa em redemoinhos fabulosos quando Pedro pergunta sem esperar resposta o que ele está pensando, mexendo em seu cabelo enquanto entra nu sob as cobertas. Quando eles terminam, ele suspira, olha para as bonecas russas sobre a estante pequena do quarto e conta para seu namorado sobre o que ouviu dela e o que pensa que pode ser e Pedro ouve quase dormindo. Pedro dorme após afagar os cabelos dele, mas por pouco tempo. Sai da cama na luz feérica das duas da manhã, inquieto com as camadas da um mundo que lhe é alheio, que o provoca com delícias divertidas e curiosas. Senta-se diante do teclado, escreve a história em parte do que ouviu e em parte do que gostaria de ter ouvido. Lê o texto e sabe que ela se ofenderá e se descobre intolerante aos lamentos dele caso ele perca a amizade dela e desliga o computador sem salvar o texto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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