Duas mentiras sobre o amor

lostheart

Há duas mentiras muito arraigadas sobre o amor. Ou mais. Eu não saberia dizer se há outras. Se houver, eu sei dizer que, neste momento, são essas duas as que protagonizam minhas ideias. Estas mentiras são cantadas em poemas, em romances, em canções populares e se aspergem ricas em fertilizantes de programas televisivos diversos.

A primeira delas diz respeito à inevitabilidade do amor. O popularesco arrota ditados sobre tampas de panela ou metades de laranja, entre outras metáforas prosaicas e nocivas. O conceito que se vende é de toda pessoa da face do planeta está fadada a encontrar sua contraparte. Acho que até Platão se arriscou nesta seara, o que explica minha predileção por Sócrates neste quesito de filósofo grego. Este arcabouço ideológico pode ser enxergado como um subconjunto das teorias que postulam haver algo inescapável chamado “destino”.

Façamos um exercício simples de raciocínio: considerando a grande variedade de pessoas no mundo, distribuídas em credos, idades, ideologias, idiomas, locais geográficos, preconceitos e o que mais possa incompatibilizar seres humanos, é razoável imaginar que todos têm efetivamente uma cara metade? Se estamos lendo os mesmos livros, provavelmente exclamaremos em uníssono um sonoro “não”.

Encontrar uma parceria no amor é tão complicado porque o nosso amor primeiro deve ser por nós mesmos. Podemos nos arrastar para um clube e nos sentir miseráveis como Morrissey se sentia ao indagar quão cedo o milagre aconteceria; o milagre não vai acontecer. “Apaixonar-se por si mesmo pode ser o início de um romance por toda a vida”, dizia Wilde, não por acaso ídolo de Morrissey. Amar a si mesmo não apenas é o requisito para fazer parte de qualquer casal como fornece todo o amor de quem decidiu se manter solteiro por um trecho ou por toda a vida.

A segunda grande mentira se refere ao amor ser difícil. Eu poderia culpar o Romeu e a Julieta ou mesmo o bardo inglês, mas eles não ocupariam sozinhos o banco dos réus, caso fosse este o procedimento; a cultura popular recende a romances difíceis, a harmonias que precisam ser arduamente conquistadas, a relacionamentos cujo cotidiano precisa ser negociado e do qual as partes resmungam em privado com seus respectivos amigos que é tão difícil, que há de se ceder e de ceder um pouco mais para que aconteça o que todos esperam que aconteça.

Será a segunda mentira um reflexo da primeira? Por acharem que precisam de uma metade, por se sentirem sós, os seres humanos lançam-se em aventuras inglórias nas quais se resignam a pensar que é assim mesmo, que amor tem de rimar com dor também na vida real e não apenas em canções baratas do repertório do sertanejo universitário? Ou do Bon Jovi, que é a mesma coisa? Não, eu me recuso a aceitar nas lorotas de um Djavan, de onde jorram frases do naipe de “não sabe que amar/é quase uma dor só” com ênfase generosa nos “O”. Quero viver o amor da parceria que não exclui o amor por mim mesmo.

Quero sentir que a soma das partes excede aquilo que cada um colocou sobre a mesa como sua contribuição pessoal. Há amor jorrando de fontes por todo lugar; cada coração pode ser uma fonte e meu coração é a fonte de onde beberei primariamente o amor de que preciso. Se o caminho do coração estiver aberto, o amor certamente fluirá e sobrará, temos amor suficiente para todo mundo, amor para preencher nossos dias, nossas amizades e nossas vidas. Um amor que se expanda pela forma como enxergamos o outro e toda a vida em nosso planeta.

A vida pode ser bem melhor. E será. Só precisamos encontrar o amor em nós mesmos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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