É Sexta-Feira, Amor!

2016-04-08 21.13.09

O Cícero é um fofo. Que nem nos discos. Sua personalidade emana esta fofura ao longo de toda a apresentação. As músicas, ao vivo, ganham um peso inesperado, um peso inteligente, como a música de Cícero sempre mostrou ser. Um peso que deve sua gênese à audição  da vanguarda do pop barulhento. Cícero bebe da mesma fonte que o Radiohead quando se trata de fazer barulho instigante com suas guitarras. As recriações a vivo eclipsam fácil os esforços de gravação dos discos, me levam a indagar quando Cícero vai encontrar produtor que consiga traduzir sua força de palco em um registro de estúdio.

Espero as portas para o teatro abrir e me sinto isolado com minha namorada. A potencial plateia não parece juntar maiores de trinta em quantidade suficiente para entreter os dedos das mãos de uma pessoa. Isto diz mais sobre a situação cultural do que sobre Cícero. Sua música é atraente tanto para jovens quanto para adultos e só a preguiça desses últimas explica o fato de o cantor carioca não estar sendo assistido por média mais elevada de idade. Ouço muita gente reclamando de “os jovens não escutam música boa”, gente que acha que “música boa” deixou de ser produzida a partir de alguma data muito vaga mas específica de cada opinador, gente que provavelmente se esbalda indo ao John Bull para ouvir uma banda cover fantasiada enquanto existe algo original e provocativo acontecendo neste exato momento.

Cícero é um artista no auge de sua carreira. Ainda deve criar muita coisa boa, mas o registro até o momento deveria orgulhar seu sorriso tímido. Corre-se o risco de dissolver as letras fortes do primeiro disco em traduções cada vez mais vagas que embarcar em
ousadas batalhas instrumentais. É um risco bom, uma ousadia que vai nos render surpresas e audições cada vez mais atentas, mas que fatalmente adensará a obscuridade em torno de um artista essencial para a saúde da música brasileira.

Eu esperava um violão de nylon, mas Cícero empunha uma guitarra semi-acústica que funciona perfeitamente. Com exceção de uma corda estourada que é substituída por outra de cor incerta, misturando ré com sol e gerando a oportunidade de um diálogo curioso com a plateia. Cícero pede que a luz seja acesa pois ele nada vê de cima do palco, talvez não haja ninguém mas apenas uma gravação de palmas e apupos. A luz é acesa e ele está entretido, meio nervoso, com a corda estourada da guitarra. Queremos que Cícero tenha todo o tempo do mundo, que crie sua arte embebido na calma que exala dali de cima.

A banda é jovem como seu líder, talvez até mais. As recriações vão de fieis a melhores ainda. O barulho distorcido está na medida para provocar, no limite de incomodar de verdade. Os andamentos são ousados, os ruídos ganham sentido ao vivo, o sentido que se percebe na linguagem corporal de quem toca. Tempo de Pipa é a coisa mais parecida com um hit, então o interesse não oscila durante a apresentação. Nós queremos ouvir tudo, embora haja clamores por “Pelo Interfone” e “Açúcar ou Adoçante”. Eles tocam quase tudo do segundo e do terceiro disco, deixam dois acepipes do primeiro disco para nos fazer sorrir e chorar e irmos para casa tão felizes, mas tão felizes que eu nem sei dizer quanto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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