Jorge Luiz Calife: Sereias do Espaço

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A literatura brasileira sempre me intrigou pela relativa ausência de romancistas. Por alguma razão, que me escapa, o escritor brasileiro se esquiva costumeiramente de narrativas longas. A literatura tupiniquim é território para contos e para crônicas, alguma poesia, mas há bem menos casos de volumes que ultrapassem duzentas páginas, algo corriqueiro na literatura de outros países. Tenho hipóteses toscas sobre o assunto, dentre as quais a mais razoável é a de que invernos longos e rigorosos proporcionem, de forma inevitável, o tempo para a devida fermentação de um romance.

Elucubrações à parte, o escritor Jorge Luiz Calife propõe uma outra provável explicação para os fatos descrito no primeiro parágrafo. Segundo ele, o brasileiro não consegue viver de literatura, o que o impede de concentrar suas forças em roteiros densos e longos. Ainda que estejamos, eu e ele, tentando provar pontos distintos, suas ideias, assim como seu livro, me servem para corroborar, senão a hipótese que a embasa, a regra empírica que observo.

Gosto muito de ficção científica, então fiz vista grossa à capa deste livro, que emula as cenas típicas de quadrinhos europeus do gênero, que conheci através da leitura da edição nacional da revista Heavy Metal. Uma fêmea seminua de traços exagerados se contorce em terror diante de uma monstruosidade espacial vaga. Esta fantasia nerd, que potencialmente contém muito do machismo setentista em seu âmago, é recorrente nas narrativas curtas de Calife. Suas heroínas são todas lindas, deslumbrantes; se um leitor tomar como base a construção arquetípica da heroína califeana, ele vai deduzir que os atributos heroicos estão necessariamente associados a uma bela constituição facial e de corpo.

Em boa parte das histórias a construção apressadas de caracteres e de cenários deixa claro que Calife está escrevendo para jovens de décadas passadas. Slam, de Nick Hornby, se propõe a falar com jovens, mas sua linguagem é trabalhada de forma profunda, assim como seu roteiro, então dá uma preguiça imensa ver clichês sendo repetidos página após página nesta ficção brasileira. Comecei a gostar de algumas partes do livro quando este me lembrou fortemente as aventuras de Xisto, da coleção Vagalume, o que demonstra que a nostalgia é realmente uma força poderosa a mover positiva a percepção sobre uma dada obra.

A ansiedade faz com que se percam belas oportunidades de escrever um épico. O exemplo mais patente é o da sequência de histórias de Angela Carter, que evolui para uma ópera espacial que transcende todas as fronteiras da percepção de tempo e espaço humanas, mas que tropeça ao não perceber o valor da poesia que poderia evocar. Fosse dado mais volume, o leitor poderia absorver com mais intensidade a grandiosidade do que Calife propõe. Além desta pressa, há algumas idiossincrasias um tanto constrangedoras. Como acreditar que um império galáctico de séculos além no futuro manterá nomes tão contemporâneos quando Ciro e Luciana? O avanço do tempo, o contato com outras civilizações, assim como o efeito da dispersão das populações em planetas radicalmente diferentes, tudo isso contribuirá para que os nomes se transformem de um modo imprevisível. Outro ponto é que não adianta arrotar nacionalismo mantendo nomes brasileiros se os personagens em questão passam suas vidas em desertos idealizados de filmes antigos de Hollywood. A coisa toda me cheira a ufanismo requentado da época da ditadura militar no país.

Se eu tivesse lido este livro na época do segundo grau, eu provavelmente me divertiria muito. Na idade adulta, após ler instigadores da ficção científica como Asimov, Clarke e Dick, ainda que eu valorize o esforço do autor, fica difícil encontrar valor profundo nas sereias do espaço.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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