John Kenneth Galbraith: O Triunfo

galbraithtriunfo

Esta é uma história que já tentei contar em artigos e conferências. Afinal pareceu-me que a verdade pode emergir melhor da ficção. Receio chamar de romance este relato; nele há muita intervenção do autor. Talvez Truman Capote o chamasse de romance sem ficção.

Estas são as palavras do capítulo de Explicação que Galbraith impõe habilidosamente a este que é seu único romance. Eu não saberia descrever melhor a empreitada. Desconheço o método de Galbraith para estruturar seus textos. A mim tanto parece uma pessoa que burila suas frases até que se tornem perfeitas quanto um professor tarimbado a quem a escrita flui como de uma fonte marota em meio à Mata Atlântica. Seu estilo se aproxima ao de Graham Greene pela forma leve como narra fatos profundos de reflexão, mas enquanto a prosa de Greene se debruçaria deliciosa sobre a condição humana, a de Galbraith fuzila a mediocridade com saraivadas de sarcasmo e ironia.

Em comum com Greene Galbraith tem ainda a capacidade de descrever personagens com poucos traços, em frases certeiras que deixam ao leitor o prazer de descobrir o caráter de cada peão pelas entrelinhas de pinceladas impressionistas. Neste O Triunfo, Galbraith reforça o efeito da descrição de cada personagem com firmes guinadas de cenário. Cada personagem reage diferente ao local onde se encontra, mas ainda assim mantém sua essência.

Neste volume é a experiência de diplomata que toma as rédeas, deixando ao economista o papel de consultor. A história se passa em uma república de bananas, mas seu drama é universal, se aplica, em graus e ângulos diferentes, a qualquer país latino-americano durante o auge da guerra fria. Galbraith deixa o horror da violência e da tortura para um segundo plano; não lhe interessa discorrer sobre o sangue derramado, pois este roubaria das páginas a mordaz e completa descrição da patuscada que os patetas perigosos de Washington passaram aquele tempo todo acalentando.

Esta edição, magnífica pelo aspecto histórico, encanta pelo peculiar de ter sido traduzida por uma das figuras mais polêmicas da política brasileira, Carlos Lacerda, pivô da trama sórdida que desembocou no suicídio de Getúlio Vargas. Lacerda escreve um longo ensaio sobre Galbraith e este romance, de onde se sobressai com este trecho das páginas 266/267:

Intelectual é algo que em política é preciso se fazer perdoar por ser. Chega-se a ser perdoado mas sob condição de ser esquecido – pois sempre se fica mal visto; em política não há nada mais humilhante do que a inteligência. A não-inteligência ou é tranquila e é segura de si ou é invejosa e ressentida; em ambos os casos quem sai perdendo é o seu contrário. Em política, a inteligência é como a gagueiras no teatro, algo que se precisa superar para fazer carreira. Um intelectual chega a receber votos do povo mas raramente, ou nunca, o reconhecimento dos políticos e a confiança dos militares. Aqueles consideram a inteligência uma afronta, estes, uma insinuação. Em nossos países a inteligência é considerada um enfeite e não um instrumento. Ser inteligente é ser desobrigado de deveres e compromissos, nesses países cujos donos não sabem para que serve a inteligência. Nos Estados Unidos ela chegou a ser considerada uma ameaça. Hoje, digamos, encaram-na como uma mal necessário, como a bomba atômica – embora esta inspire menos temor por serem mais previsíveis os seus efeitos. Ao passo que a inteligência… Pois bem, o professor Galbraith ainda por cima se dá ao requinte de lembrar, a cada frase, a sua suspeita condição de intelectual.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s