John Updike: Um Mês Só de Domingos

2016-05-15 16.07.37

Um mês só de domingos é o registro de algumas experimentações sobre o conteúdo que sempre se espera de Updike: o adultério. Seu personagem é um pastor protestante que afunda o pé na jaca, sendo forçado a passar um mês em um retiro para recuperação de religiosos problemáticos. Este mês passado em meio ao deserto, jogando golfe e pôquer com outros párias de congregação, ensaia uma redenção bem diferente daquela que o cinemão norte-americano costuma impingir aos incautos que ainda o assistem. Updike está mais interessado no caminho do que no destino, embora se dirija ao segundo com clara intenção. Suas tramas não são frouxas, ele apenas se permite divagar, levando o leitor a apreciar consigo uma tarde qualquer de uma cidadezinha que ele, o leitor, nunca virá a visitar mas que já conhece tão bem.

A prosa aqui não é tão linear quanto a de suas narrativas anteriores. Updike utiliza tempos alterados, primeira pessoa confessional, ensaia muito e chega mesmo a rascunhar toda uma cena não testemunhada como um ato de uma peça de teatro. Havendo chegado a seu estilo, ele agora tratava de experimentar seus limites e achar novos atrativos em suas formas.

Updike escreve de uma forma tão leve que chega a dar raiva. Seu protagonista chega a citar outro ícone da leveza literária aqui, provavelmente o maior deles, Graham Greene. O texto confessional ainda que não haja um confessionário, nos carrega pelo colarinho, nos faz ter curiosidade pelos eventos que desconfiamos que irão ter lugar mas que se escondem numa pincelada rápida entre duas frases. Costumo voltar e reler trechos assim em quais Updike revela uma reviravolta assim como quem distraidamente relembra uma cena trivial de sua infância, algo que tenha sentido apenas para si.

Ele diz na página 177 que “sabendo, dissolvemos o mundo o suficiente para nos movermos por ele em liberdade. Afastamos a claustrofobia. Pense em um mecânico de automóvel, como é engraxadamente graciosa a sua descida sequencial para o problema, comparado ao burrão (eu) que bate o capô zangado sobre o enigma renitente de seu motor que se nega a dar partida, e esmaga o polegar. Conhecendo, dissolvemos o verniz de nossas trevas animais põem sobre as coisas e empatizamos com o trabalho de Deus.” Isto é parte dos devaneios do pastor que circula através de livros e escrituras e que ainda se encanta pelo charme inevitável da ciência.

Updike nunca deixa de honrar os cinco pilas que colocam como preço de seus livros nos sebos por aqui.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s