Pornografia

hookedonporn

Apaguei minha pasta de pornografia hoje de manhã.

Minha história com pornografia começou na adolescência, ainda em Canoinhas, com umas fotonovelas de sexo explícito que encontrei numa gaveta de casa. Eu não sabia o que fazer com aquelas sensações estranhas naquela idade e levei um bom tempo para entender a lógica da masturbação, que me ocorreu apenas na época em que eu cursava a escola técnica. Meus pais sempre foram muito abertos em relação ao tema da sexualidade, pelo menos naquela que eles exercitavam, heterossexual e provavelmente certinha. Isto basta de detalhes para mim, claro. A mim era permitido pegar fitas (sim, VHS, o Betamax já tinha morrido) pornô sem problemas, tanto que logo me entediei com elas. O mistério e a delícia do relacionamento, estava demonstrado, não se encontravam em demonstrações mecânicas de penetrações acrobáticas e fantasias assimétricas.

A grana durante o segundo grau era curta, então vinha a calhar o serviço  de aluguel de revistas Playboy que o dono de uma banca de jornais, junto ao finado mercado Luciano, providenciada. Não lembro quantos caraminguás aquilo custava, pois eu focava meus investimentos em entretenimento de moleque mesmo, como jogos eletrônicos, onde, dependendo da sua habilidade, havia a chance de obter fama local junto a meia dúzia de moleques que não tinham nada melhor para fazer. Em seguida haviam os clubes informais onde circulavam as Playboy dos amigos, de modo que o indivíduo só precisaria comprar duas revistas por ano, e as outras viriam pelo retorno deste investimento.

Como percebem, nunca fui ávido consumidor de pornografia. Eu nunca fui ávido consumidor de carne, de modo que talvez tenha sido mais simples largar o hábito de comer bichos. Talvez largar a pornografia tenha demorado mais para ser deixada porque as coisas na vida, enfim, têm seu tempo. Além de umas revistas velhas numa caixa na casa da minha mãe, havia aqui no computador uma pasta com vídeos e imagens, mas o balanço de observá-los pendia cada vez mais para o desconforto do que para o esperado prazer. Antes de apagar, verifiquei o volume e ficava abaixo do necessário para meia dúzia de álbuns em MP3. O ato em si nem é tão drástico assim: há tanta pornografia disponível na internet que eu poderia recuperar tudo em um piscar de downloads. O que interessa é a motivação por trás do ato.

Na prática, funciona como no caso de largar a carne. Piadas podem ser feitas usando esta analogia, inclusive, eu não ligo. Num vídeo ou numa imagem de pornografia, há apenas um objeto, capturado em um momento específico onde demonstra uma característica muito restrita de sua existência tanto mais ampla. Homens e mulheres são mostrados como objetos, ferramentas específicas, e são despojados de sua, digamos, alma. No lugar de “alma”, eu creio que cada leitor poderá colocar uma palavra específica que lhe traga a ideia mais correta da amplidão de um ser humano.

Ainda que homens sejam objetos na pornografia, são as mulheres que, como de praxe, sofrem mais, incomensuravelmente mais. A pornografia sempre me passa a sensação de que alguém está sendo oprimido e este alguém, pode ter certeza, é uma mulher. Pornografia enquanto conceito fala de submissão da mulher ao macho ou conjunto de machos. A pornografia não raro incita ao sexo não consentido, ou seja, ao estupro, caso não tenha ficado claro.

O horror se estampa na tela de forma sutil, mas a indústria da pornografia, gigantesca, deixa a violência filmada com cara de domingo no parque com crianças e cachorrinhos fofos e balões e piquenique. Existe uma mentalidade, entre espectadores de pornografia, de que há mulheres que gostam de atuar em filmes, assim como se acredita que há mulheres que amem se prostituir. Ainda que isso possa efetivamente ser verdade, não se aplica a todas as mulheres que aparecem em filmes pornô ou que se prostituem, portanto cabe ao espectador ou usuário destes serviços se questionar sobre a quem serve esta mentalidade. Uma simples análise aponta para exploradores, como o espectador e o agenciador de tais serviços.

Eu fui uma única vez a uma casa de tolerância, para ver uma peça de teatro da produtora de meus amigos. Definitivamente não é um ambiente que me apeteça ou que eu me permita glamorizar. É um açougue de almas humanas, um insensível moedor de esperanças. Minhas fantasias prosseguirão. Tenho imaginação, tenho um mundo em movimento, tenho lembranças, mas o mais importante é ter respeito por mim, por minha namorada e, principalmente, pelas pessoas que são devoradas pela indústria da pornografia.

Se você se interessou pelo assunto, há muito material na internet que mostra a relação da pornografia com a prostituição. Há também material que correlaciona patologias psicológicas derivadas do consumo de pornografia; sim, faz mal à saúde. Há um filme muito legal chamado Don Jon, que não é exatamente uma obra-prima cinematográfica, mas que lida muito bem com o vício em pornografia; recomendo fortemente. Em suma, há um arsenal de leituras e vídeos que podem ajudar quem está interessado em deixar de lado a pornografia; talvez seja um pouco mais difícil do que achar sexo na internet, mas eu creio que vale a pena.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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