Inhotim: Tentativa de Captura

2016-06-10 12.37.01

O desafio, homérico, está em tentar descrever o que Inhotim causa em mim. Talvez seja mais fácil descrever o lugar: “um jardim imenso semeado de obras de arte contemporânea em galerias e a céu aberto”. Seria o suficiente para te convencer, crédulo leitor, a visitá-lo? Isto me aliviaria do fardo ingrato de transcrever minha experiência aqui. Inhotim é um lugar encantador e não encontrei quem falasse mal. O encanto se manifesta em todas as pessoas, de uma ou outra forma. Lá eu talvez tenha finalmente feito as pazes com a arte contemporânea. As longas caminhadas, os desaparecimentos em meio à vegetação exuberante, o flanar por entre os lagos lisos e silenciosos, o verde onipresente rompido carinhosamente por exemplares de arquitetura arrojada e encantadora. Inhotim tem o poder de encantar mesmo quem não gosta de arte; suas provocações podem ser lúdicas enquanto belas, ou curiosas afrontas ao que se conforma em definir como senso comum. A brincadeira muitas vezes consiste em dar um curto-circuito em sinapses desavisadas; em outras, nos convida a deitar e se deixar levar pelos sons aterradores de uma janela profunda para as entranhas rasas da própria Terra. Outra galeria nos mergulha numa escuridão assustadora para nos lançar à percepção desprevenida uma maravilha geométrica de feixes sólidos de luz. Dois dias é o período mínimo para apreciar, de forma cronometrada, o que o Inhotim oferece. Mínimo mesmo. Um cronograma e alguma disciplina são demandados para completar o périplo, com a certeza prévia de que é apenas um sobrevoo, de que um retorno é inevitável, um retorno para apenas flanar sem destino, sentando nos bancos, deitando-se sobre os tablados absorvido em contemplação do que o encontro entre gênio humano e natureza terrena pode proporcionar. Deste reconhecimento guardo a lembrança de uma sobrecarga sensorial. As memórias se acumulam em tal densidade que não consigo acreditar que elas se passaram em dois dias, ainda mais considerando que o parque abre às 09h30 e fecha sete horas depois. Confesso que eu nem ia tentar descrever o que senti se ela não tivesse insistido. Sinto-me confuso e pequeno ao tentar capturar a experiência e ainda assim algo como um explorador recém-chegado de uma terra próxima cujos encantos não tenho certeza que todos os visitantes compreendem. Pode ser que o parque seja único como se apresenta aos meus olhos por proporcionar a experiência ímpar do encontro de meus sentidos em dias específicos onde eu era uma certa quantia de minhas próprias manifestações. E que lugar hospitaleiro, para além das pessoas hospitaleiras que lá trabalham. Até a previsão do tempo se contradisse em suas intenções de chuvarada: recebemos uma leve chuva no segundo dia durante quinze parcos minutos. Sou um agnóstico que mantém uma pontinha de gratidão a um São Pedro da superstição nascida em minha infância. A objetividade talvez retorne em um segundo texto, talvez uma série. Prometer eu não vou.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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