Eduardo Giannetti: Felicidade

felicidade

“Felicidade” é uma palavra popular. Rima com “saudade” em músicas de rádio. Faz saltarem imagens mentais de pandas abraçando crianças fofas. Ou propaganda de margarina. Sim, há quem evoque propaganda de margarina quando a palavra de gatilho é “felicidade”. Felicidade é algo que fatalmente vem à baila durante aquela conversa algo etílica que se tem com o amigo em dificuldades amorosas. Apesar de felicidade ser um tema tão citado em filosofia de boteco, não há quem tenha definido o que é felicidade. Ou como alcançá-la.

Coube ao Giannetti, autor de Auto-Engano e O Valor do Amanhã, escrever um livro sobre o assunto. Em vez de escrever um livro no formato dos citados logo acima, ele preferiu deixar a vida levá-lo ao inevitável boteco. Sim, o boteco. Com algumas diferenças, claro. Ele juntou-se a mais três desocupados de considerável erudição e pontos de vista discrepantes para encontros que partiriam de um artigo, escrito por um deles, sobre algum aspecto da felicidade.

Sem álcool envolvido. Alguém poderia questionar a parte do boteco sem álcool, e a resposta é trivial: filosofia de boteco tem mais a ver com discutir assuntos com gente que não entende dos tais assuntos de forma acalorada e ampla, geralmente sem conclusões e com eventuais hematomas. Físicos ou morais.

Os envolvidos no assunto são eruditos, o que teoricamente os prepara para fazer bons debates nas respectivas áreas de estudo. Entretanto, felicidade é algo tão abstrato que eu não consigo levar a sério alguém que acredite que conseguiu algo consistente para escrever sobre o assunto. Desta forma, podemos considerar que os quatro eruditos podem conhecer toneladas de citações de textos obscuros mas seguem desqualificados para falar sobre o tópico fugidio da felicidade. Em outras palavras, eles estão habilitados a encetar um debate de boteco.

Ironias e brincadeiras à parte, Felicidade versa sobre a derrocada do projeto iluminista pelo qual o homem alcançaria a felicidade ao dominar o mundo natural. O conhecimento afastaria as trevas da superstição e libertaria o homem do jugo da natureza. As trevas, entretanto, ainda estão aí, podem ser conferidas em qualquer agremiação evangélica perto da sua casa. A ciência avançou, o conhecimento sobre o mundo natural idem, assim como a tecnologia fantástica que nos serve, ou a qual servimos, dependendo do pensador citado. Muitos de nós têm a possibilidade de encontrar a felicidade, mas empiricamente sabemos que não é assim.

Giannetti e seus amigos de faculdade entram em cena. São quatro encontros recheados de argumentos dispostos em discussões civilizadas ainda que afiadas. O projeto de felicidade é revisto ao longo de quatro séculos em que foi desenvolvido. Pensadores são trazidos à tona, alguns para surpreenderem com suas epifanias, outros para receberem o carimbo merecido da mediocridade. Felicidade é um livro que flui como um rio entre as ideias: ele passa, mas deixa um leito alterado sutil e inevitavelmente.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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