Arthur C. Clarke: A Cidade e As Estrelas

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A Cidade e As Estrelas é um dos primeiros romances de Arthur C. Clarke. O escritor detalhista que estava por vir ainda tateava cuidadosamente o espaço em busca de perguntas válidas e respostas plausíveis. O cenário é adequado: a um bilhão de anos no futuro, a humanidade é um cadinho de imprevisibilidades que deixa o campo aberto a especulações mais do que fantasiosas, quase descuidadas. Pouco sobrou do planeta, apenas uma cidade onde um grupo entediado de quase imortais passa seus numerosos dias se entretendo com estudos fúteis e jogos ainda mais. Computadores regem a cidade aposentada imersa em memórias longínquas de tempos gloriosos de um império galáctico comandado pelo homem.

Mesmo os mais bobos dos adolescentes viram as reciclagens atuais de clássicos de ficção científica como Divergente e aquele outro em que a cidade distópica tem um cara especial que conta histórias, e sabem que um lugar tão pacato só pode provocar o surgimento de um elemento disruptivo afinal, como diz o Ian Ramil, “uma história sem extremos ninguém para para escutar”. Sim, aparece este ponto fora da curva e chacoalha o barraco dos acomodados, como pode ser verificado nas duzentas e tantas páginas deste volume que se deixa ler com uma facilidade extrema.

Clarke é cuidadoso em seus passos e constrói uma narrativa cativante, um livro que dificilmente se deixa de lado. A juventude do autor se entrega no quarto final do livro, que se desenrola em uma velocidade alucinante demais. Ainda que isto possa sublinhar com vigor a diferença entre a modorra de Diaspar e a aventura potencial do ser humano, me peguei desejando passar algum tempo apreciando certas localidades visitadas pelo protagonista. Talvez esta história pudesse ser quebrada em partes como a saga de Rama, por exemplo, para dar mais tempo e sabor às suas passagens.

Outro ponto que denota ansiedade é a construção um tanto exacerbada de diferenças entre as populações de seres humanos. Clarke propõe inicialmente uma visão um tanto distante, mas logo declara suas preferências, coroando de louros a escolhas de um dado grupo. A ambiguidade de uma empatia maior com os moradores de Diaspar seria bem-vinda, causaria um número maior de reflexões do que uma polarização. Embora os moradores de Diaspar tenham suas razões bem descritas, eles são reduzidos solidamente quando se aplica a eles a pecha de covardes.

Fora estes pequenos detalhes, é impressionante a obra de Clarke. As descrições, ainda que evitem detalhes que pudessem ficar datados, são ricas e encantam o leitor. Eu me senti andando pelas ruas de Diaspar, entrando em seus prédios que nunca se desgastam, em meio a seu povo diáfano e blasé. É difícil não se deixar comover pelas criaturas da imaginação de Clarke, mesmo as mais monstruosas ou exóticas são mostradas de modo a criar alguma empatia com o leitor. O protagonista pode ser o escolhido ou algo assim, mas não é a pessoa absolutamente mais capaz da trama; outros personagens possuem força e presença e o protagonista sabe abrir espaço para que ajam.

A Cidade e As Estrelas é uma obra magnífica, ao mesmo tempo ambiciosa e de fácil acesso. Como quase tudo o que Clarke escreveu.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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